A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a agitar o mercado internacional de trigo. O primeiro movimento foi de antecipação: grandes importadores da região cogitaram acelerar compras diante das tensões geopolíticas. Na prática, porém, a corrida foi pontual. Apenas a Arábia Saudita ampliou uma aquisição prevista em 660 mil toneladas para 794 mil toneladas.
Para Luiz Pacheco, analista da TF Consultoria Agroeconômica, os movimentos de alta e queda nos preços refletem um ajuste típico de mercado diante de eventos externos. “É como um elástico. O mercado é puxado para cima ou para baixo e faz vários movimentos até encontrar um novo ponto de equilíbrio”, explica.
Logística vira o principal entrave
Com o avanço do conflito, a preocupação central deixou de ser o volume negociado e passou a ser a segurança do transporte marítimo. Um navio cargueiro foi atingido na região recentemente, o que elevou a apreensão sobre os custos de frete de commodities.
O cenário financeiro global também pesa. Com perdas nas bolsas de valores, investidores vendem posições em commodities para cobrir prejuízos em outros ativos, o que amplia a volatilidade. O fortalecimento do dólar é mais um fator de pressão: como o trigo é cotado na moeda norte-americana, a valorização cambial reduz a competitividade em alguns mercados e altera fluxos comerciais, segundo Élcio Bento, analista da Sagras & Mercado.
Apesar da instabilidade, o quadro global de oferta é considerado relativamente confortável. A Rússia, um dos principais exportadores mundiais, sinaliza uma grande safra, o que ajuda a balizar os preços. A Ucrânia segue como fornecedora relevante, mesmo enfrentando dificuldades logísticas por causa da guerra. No curto prazo, porém, Pacheco alerta que a capacidade de outros países absorverem volumes adicionais de milho ou trigo é limitada, já que contratos e fornecedores estão previamente definidos.
Impacto no Brasil é moderado, mas há riscos
Para o Brasil, o impacto imediato no abastecimento é considerado moderado. O país importa entre 6 milhões e 6,5 milhões de toneladas de trigo por ano, sendo 4 a 5 milhões provenientes da Argentina e cerca de 1 milhão de outros países, com volumes adicionais buscados nos Estados Unidos quando a qualidade do trigo argentino apresenta limitações.
Daniel Kummel, da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), destaca que os moinhos operam com estoques equivalentes a três meses de moagem, o que oferece proteção no curto prazo. A indústria brasileira processa cerca de 13 milhões de toneladas por ano. “O mundo está bem ofertado de trigo. Neste momento, não há viés claro de baixa”, avalia.
Ainda assim, um eventual prolongamento da guerra pode elevar os custos logísticos e pressionar o mercado futuro. A alta do petróleo também impacta diretamente o custo dos fretes e, indiretamente, os custos de produção. No campo, há preocupação com fertilizantes: parte desses insumos vem do Oriente Médio, e entraves logísticos podem elevar preços, embora grande parte das compras para a safra atual já esteja fechada.
Para a próxima safra de trigo no Rio Grande do Sul, cujo plantio começa em abril, a expectativa é de queda entre 10% e 15% na área cultivada por causa de preços abaixo do custo de produção. Regiões como São Paulo e o Cerrado devem ampliar a área plantada, ainda que com menor peso na produção nacional. Pacheco também alerta para um possível aumento de área de milho motivado pelo temor de guerra, movimento que considera arriscado em um cenário de excedente global.









