O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã encerra um conflito que pressionou a economia global nos últimos meses. A guerra afetou principalmente o mercado de energia, com impacto direto sobre petróleo, combustíveis, inflação, bolsas de valores e projeções de crescimento.
O ponto mais sensível foi o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio mundial de petróleo e gás natural. Com a interrupção do fluxo na região, o preço do barril disparou e chegou perto de US$ 120, depois de estar na casa dos US$ 70 antes da escalada do conflito.
A alta da commodity encareceu combustíveis e derivados, afetou custos de transporte, pressionou cadeias produtivas e elevou a inflação em diferentes países.
Petróleo puxou a primeira onda de impactos
O fechamento do Estreito de Ormuz foi o principal gatilho para a disparada do petróleo. Pela rota passa cerca de 20% do petróleo e 25% do gás natural comercializados no mundo.
A pressão sobre a oferta levou a Agência Internacional de Energia a liberar estoques emergenciais em uma tentativa de conter os preços. Ainda assim, o choque se espalhou para diferentes setores.
Com combustíveis mais caros, fretes marítimos e rodoviários subiram. A indústria também sentiu o avanço dos custos de energia, enquanto o setor agrícola foi impactado pela alta de insumos como fertilizantes.
A ureia, por exemplo, acumulou alta de cerca de 60% no período, segundo os dados citados na reportagem.
Inflação voltou ao centro do debate nos EUA
Nos Estados Unidos, a alta do petróleo atingiu um ponto sensível para o consumidor: a gasolina. O preço médio do galão passou de cerca de US$ 2,98 para mais de US$ 4.
A inflação ao consumidor chegou a 4,2% em 12 meses em maio, o maior patamar em três anos e acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve.
Com a pressão sobre os preços, o banco central americano manteve os juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano, adiando a expectativa de cortes. Juros altos por mais tempo tendem a encarecer crédito, reduzir investimentos e limitar consumo.
O tema também teve impacto político. Pesquisas citadas na reportagem apontaram queda na aprovação do presidente Donald Trump, especialmente na avaliação da área econômica.
Brasil sentiu efeito nos combustíveis e no IPCA
No Brasil, os reflexos apareceram principalmente nos combustíveis. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis indicam que diesel e gasolina chegaram a acumular altas de 23,6% e 8%, respectivamente, nos últimos meses.
O avanço chegou ao consumidor por meio do transporte, dos fretes e da formação de preços de produtos básicos. O IPCA, inflação oficial do país, acumulou alta de 3,20% no ano até maio. Em 12 meses, o índice avançou 4,72%, acima do teto da meta de 2026, de 4,5%.
A piora das expectativas também apareceu no Boletim Focus. Economistas passaram a projetar Selic de 13,75% ao ano em 2026, indicando juros elevados por mais tempo.
Para famílias e empresas, esse cenário significa crédito mais caro, menor espaço para consumo e mais cautela em decisões de investimento.
Mercados reagiram com busca por proteção
A guerra também afetou câmbio e bolsas. Em momentos de incerteza, investidores costumam buscar ativos considerados mais seguros, como o dólar.
No Brasil, a moeda americana atingiu o maior nível do ano em março, cotada a R$ 5,3142, em meio às tensões do conflito e à alta do petróleo.
Depois, com maior clareza sobre os impactos da guerra e seus efeitos setoriais, investidores reduziram posições defensivas e voltaram a buscar ativos de maior risco. No acumulado do ano até a véspera do acordo, o dólar registrava queda frente ao real.
Na bolsa, o movimento foi semelhante. Primeiro veio a aversão ao risco. Depois, o mercado passou a selecionar empresas e setores que poderiam se beneficiar do novo cenário, como exportadoras de petróleo.
Crescimento global perdeu força
O conflito também levou organismos internacionais a revisarem projeções de crescimento. O Fundo Monetário Internacional reduziu a estimativa para a economia mundial em 2026 de cerca de 3,3% para 3,1%.
A OCDE também revisou suas projeções e passou a estimar desaceleração do crescimento global, de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026. Em um cenário de crise energética prolongada, a expansão poderia cair para 2,1%.
Europa, indústria e países dependentes de energia importada ficaram entre os mais pressionados. Alemanha e França tiveram projeções reduzidas diante do encarecimento da energia e da queda do poder de compra das famílias.
Normalização deve ser gradual
Com o acordo de paz, o mercado começou a reduzir parte do prêmio de risco embutido no petróleo. O Brent voltou a operar abaixo de US$ 80 por barril, embora ainda permaneça acima dos níveis anteriores ao conflito.
A recuperação, porém, deve depender da estabilidade no Oriente Médio e da normalização do abastecimento global de energia. Mesmo com a trégua, parte dos efeitos já chegou aos preços, às expectativas de juros e às projeções de crescimento.








