A AI Pathology, healthtech brasileira que usa inteligência artificial para identificar lesões suspeitas de câncer de pele a partir de fotos feitas pelo celular, entrou no programa Inception, da Nvidia. A iniciativa oferece acesso a infraestrutura computacional, treinamento e mentoria para startups de IA.
Fundada em 2024, em Limeira, no interior de São Paulo, a empresa quer construir um dos maiores bancos de imagens de lesões de pele do mundo. Hoje, a base reúne cerca de 90 mil imagens coletadas em parceria com instituições de todos os estados brasileiros. A meta é chegar a 4 milhões de imagens.
A tese da startup é transformar a diversidade de tons de pele da população brasileira em vantagem competitiva para treinar modelos de IA mais representativos.
“Como o Brasil reúne uma das maiores variabilidades de pele do mundo, conseguimos treinar uma inteligência artificial que pode ser exportada para qualquer país”, afirma Willian Boelcke, fundador da AI Pathology.
Um app para triagem pelo celular
O principal produto da empresa é o Nevo, aplicativo que permite fotografar uma lesão de pele pelo celular e receber, em poucos segundos, uma classificação de risco.
Segundo a startup, o sistema funciona em celulares simples e alcançou 93% de acurácia nos testes. A ferramenta não substitui o médico, mas busca apoiar a triagem e acelerar o encaminhamento de casos suspeitos.
O câncer de pele é o tipo de tumor mais comum no Brasil, com cerca de 230 mil novos casos por ano, segundo dados citados pela reportagem.
Trabalhadores rurais foram primeiro grande caso de uso
Um dos principais testes da tecnologia ocorreu em parceria com o Senar Goiás, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. A AI Pathology avaliou pintas de 2.058 trabalhadores rurais, grupo mais vulnerável ao câncer de pele pela exposição solar crônica.
A IA classificou cerca de 10% dos participantes como prioritários e identificou 75 casos de câncer de pele em estágio inicial, encaminhados para tratamento emergencial.
O estudo com trabalhadores rurais de Goiás foi premiado em um hackathon da Escola de Saúde Pública de Harvard. A startup também passou a integrar o Harvard Innovation Labs.
Fila para dermatologista é gargalo
Boelcke afirma que a tecnologia pode ajudar a reduzir um problema recorrente no sistema de saúde brasileiro: a fila para consultas com dermatologistas.
O país tem cerca de 12 mil dermatologistas registrados, o equivalente a uma média de um profissional para cada 17 mil habitantes. A distribuição, porém, é desigual, com concentração no Sul e no Sudeste.
Em algumas regiões, segundo o fundador, a espera por uma consulta com dermatologista na rede pública pode chegar a três anos.
Fundador mudou de rota após perder o pai
A origem da AI Pathology está ligada a uma experiência pessoal. Boelcke perdeu o pai para um câncer de pele diagnosticado tardiamente. Depois disso, abandonou a ideia de cursar Economia, formou-se em Odontologia na Unicamp e passou a pesquisar oncologia.
A startup foi criada ao lado de Lucas Souza, também dentista e especialista em IA aplicada ao diagnóstico em oncologia.
A empresa já recebeu R$ 4 milhões do family office Enseada, ligado aos fundadores da SulAmérica. Os recursos ajudam a financiar a etapa regulatória.
Anvisa e expansão internacional
A AI Pathology aguarda aprovação da Anvisa, que desde 2024 passou a regulamentar softwares e instrumentos médicos que utilizam inteligência artificial.
Boelcke espera obter a autorização nas próximas semanas. Com o aval regulatório no Brasil, a empresa pretende abrir uma rodada Série A de cerca de US$ 8 milhões para financiar a expansão internacional.
O plano inclui estudos clínicos nos Estados Unidos e uma futura submissão à FDA, agência reguladora americana. Desde 2024, o órgão exige que ferramentas de IA em saúde demonstrem representatividade demográfica nos dados usados para treinar os modelos.
Para a startup, esse ponto pode ser uma vantagem, já que o banco de imagens brasileiro reúne grande diversidade de tons de pele.









