O novo relatório Business Benchmark on Farm Animal Welfare (BBFAW), divulgado na quinta-feira (27/3), revela um progresso modesto na América Latina em relação ao bem-estar dos animais de produção. Um pequeno grupo de empresas tem demonstrado liderança nessa área, mas a maioria ainda está nos estágios iniciais de envolvimento.
Um grupo líder de empresas demonstra que incorporar práticas responsáveis de bem-estar animal, como fornecer mais espaço aos animais ou adotar métodos de abate reconhecidos como boas práticas, são parte fundamental de sua estratégia de negócios. No entanto, há preocupação com um bloco significativo de grandes empresas alimentícias (79%), incluindo nomes como Bimbo (México), JBS SA (Brasil) e Cencosud (Chile), que permaneceram nos níveis 5 e 6 – os dois mais baixos – pelo segundo ano consecutivo.
Na América Latina, a produção de alimentos desempenha um papel econômico e cultural importante. No entanto, o bem-estar animal ainda é tratado de maneira desigual. Enquanto algumas empresas mostram avanços promissores, outras ainda não reconhecem esse tema como uma questão de negócios relevante.
O BBFAW é a principal avaliação anual do mundo sobre políticas, práticas e desempenho da indústria alimentícia em relação ao bem-estar dos animais de produção. O benchmark avalia 150 empresas globais com base em 51 critérios e 5 pilares, classificando-as em seis níveis. O programa conta com o apoio das organizações Compassion in World Farming e FOUR PAWS. Os resultados representam a segunda edição desde que o BBFAW introduziu critérios mais rigorosos, com maior foco no desempenho das empresas em bem-estar animal e introdução do pilar referente à redução da dependência de alimentos de origem animal.
Na América Latina, a pontuação média em 2024 foi 20%, igualando-se à da Europa (20%) e posicionando a região à frente da Ásia-Pacífico (9%) e da América do Norte (12%), ficando atrás apenas do Reino Unido.
Duas grandes produtoras brasileiras — Minerva Foods e Marfrig Global Foods SA — mostraram melhorias significativas em seus relatórios e práticas de bem-estar animal. A Minerva subiu do Nível 4 para o Nível 3 e melhorou sua Classificação de Impacto de E para D. A Marfrig também elevou sua Classificação de Impacto de E para D, está entre as empresas que aumentaram sua pontuação geral em 5% ou mais e informou que 88% dos animais em sua cadeia de fornecimento são transportados dentro do tempo máximo de viagem recomendado pelo BBFAW.
No entanto, o progresso da maioria das empresas de alimentos ainda é lento. 118 empresas (79%), incluindo latino-americanas como JBS, Cooperativa Central Aurora Alimentos e Habib’s (Brasil), Agrosuper e Cencosud (Chile), Industrias Bachoco e Bimbo (México), permanecem nos níveis 5 e 6. Isso indica um progresso mínimo na formalização de políticas de bem-estar animal ou na prestação de relatórios relevantes. A BRF permanece no Nível 4, com uma Classificação de Impacto E. Além disso, 22 empresas globais (15%) ainda não publicaram uma política formal de bem-estar animal.
A metodologia do BBFAW passou por uma atualização significativa em 2023, estabelecendo uma nova base de referência para o benchmark. Essas atualizações aumentaram o foco em impulsionar melhorias significativas no bem-estar dos animais de produção, incluindo um conjunto ampliado de perguntas sobre “Impacto do Desempenho” e um novo pilar de avaliação voltado à redução da dependência de alimentos de origem animal. A edição de 2024 segue o mesmo modelo, sem mudanças significativas na metodologia.
O BBFAW também avalia as empresas com base nos impactos tangíveis de suas políticas de bem-estar animal, atribuindo notas de A a F. As notas são baseadas em indicadores como, por exemplo, o percentual de galinhas poedeiras livres de gaiolas na cadeia de fornecimento, a proporção de bovinos leiteiros não submetidos a descorna (remoção de chifres) ou desbrota (remoção dos botões córneos) e proporção de suínos não submetidos a corte de cauda.
Em 2024, três empresas (Marks & Spencer, Premier Foods e Fonterra) alcançaram, pela primeira vez, uma nota B na Classificação de Impacto. No total, 14 empresas (9%) melhoraram sua nota de impacto neste ano.
No entanto, a grande maioria das empresas avaliadas (91%) ainda recebeu as notas mais baixas de Impacto (“E” ou “F”), o que significa que ainda não demonstraram melhorias concretas no bem-estar animal em suas cadeias de fornecimento.
Nicky Amos, Diretora Executiva do BBFAW, afirmou: “Este é o segundo ano desde que o BBFAW implementou critérios mais rigorosos, e é encorajador ver que as empresas estão respondendo positivamente, com 14 subindo de nível e outras 14 melhorando sua Classificação de Impacto.”
Ela acrescenta: “Não são apenas os animais que se beneficiam dessas mudanças – com mais espaço para se movimentar e menos sofrimento devido a mutilações ou transporte de longa distância. As empresas também se beneficiam, melhorando sua reputação com os consumidores e se antecipando a possíveis regulamentações.”
Ainda assim, Amos faz um alerta: “Embora os líderes estejam avançando, ainda há muito a ser feito. A grande maioria das empresas alimentícias – incluindo muitas marcas conhecidas – continua nos dois níveis mais baixos do BBFAW. Muitas empresas ainda oferecem poucas evidências de que estão gerenciando efetivamente o bem-estar animal.”