De US$ 40 mil a R$ 130 bilhões: empresa cresce comprando gigantes esquecidos da internet

A Bending Spoons construiu um negócio bilionário comprando empresas que já viveram dias melhores na internet. Evernote, AOL, Vimeo e WeTransfer estão entre as mais de 50 aquisições feitas pela companhia italiana, que agora precisa provar na bolsa que consegue continuar recuperando marcas maduras sem ser sufocada pela própria dívida.

A empresa estreou na Nasdaq em 1º de julho, sob o código BSP. As ações subiram 40% no primeiro pregão e fecharam a US$ 40,50, levando o valor de mercado para cerca de US$ 25 bilhões, aproximadamente R$ 130 bilhões na cotação da estreia.

A oferta levantou US$ 1,68 bilhão e transformou o fundador Luca Ferrari e outros três sócios em bilionários.

Por trás da valorização está uma estratégia incomum. A Bending Spoons procura marcas com base de clientes, reconhecimento e partes ainda valiosas do produto, compra os negócios, frequentemente com dívida, reduz custos, substitui estruturas e reescreve a tecnologia.

Diferentemente de um fundo tradicional de private equity, a companhia não trabalha com a venda posterior dos ativos. A tese é manter as empresas adquiridas e gerar caixa com elas no longo prazo.

Um fracasso deixou apenas US$ 40 mil

A origem da companhia remonta a 2013, quando Ferrari, Matteo Danieli e Francesco Patarnello estudavam Engenharia e criaram em Copenhague um aplicativo de diário chamado Evertale.

O negócio captou US$ 1 milhão, mas quebrou antes de completar três anos.

Do fracasso restaram cerca de US$ 40 mil, dois funcionários que os fundadores consideravam acima da média e uma nova tentativa de construir uma empresa de tecnologia.

O nome Bending Spoons surgiu de uma referência ao filme Matrix e à ideia de “entortar colheres”. Nos anos seguintes, a companhia começou a comprar aplicativos de celular quase sem chamar atenção, enquanto desenvolvia uma estrutura própria para operar, reconstruir e monetizar produtos digitais.

Evernote colocou a estratégia no centro do mercado

A aquisição que mudou a visibilidade da empresa veio em 2023, com a compra do Evernote.

O aplicativo de anotações havia sido uma das marcas mais conhecidas do Vale do Silício, mas enfrentava anos de perda de relevância e sucessivas mudanças de comando.

A reestruturação foi agressiva. A Bending Spoons demitiu centenas de funcionários, encerrou toda a equipe americana, elevou preços e retirou recursos que ainda eram populares entre usuários antigos.

Ferrari, porém, considera o Evernote a principal aquisição da companhia. Segundo o executivo, boa parte da base tecnológica foi reconstruída e os novos registros de usuários voltaram a crescer após anos de queda.

Depois vieram outras marcas conhecidas, entre elas Eventbrite, AOL, Vimeo e WeTransfer.

Ao todo, a companhia já fez mais de 50 aquisições, e mais de três quartos dos negócios foram fechados apenas nos últimos três anos.

700 funcionários operam um portfólio bilionário

A execução das reestruturações depende de um time de aproximadamente 700 profissionais, chamados internamente de “Spooners”.

A empresa afirma adotar um processo de contratação altamente seletivo. Segundo Ferrari, menos de 300 pessoas foram escolhidas entre cerca de 800 mil candidatos no último ano.

Essas equipes entram nos negócios adquiridos para reconstruir produtos, cortar estruturas antigas e acelerar mudanças tecnológicas.

A receita por funcionário chegou a US$ 2,57 milhões no ano passado, de acordo com números citados pelo executivo.

O modelo também cria uma limitação evidente: depender de um grupo relativamente pequeno de profissionais para conduzir transformações em dezenas de empresas pode dificultar a próxima fase de expansão.

Dívida de US$ 4,4 bilhões vira principal teste

A Bending Spoons chega ao mercado acionário com cerca de US$ 4,4 bilhões em passivos.

O endividamento ganha peso porque a companhia precisa continuar fazendo aquisições grandes o suficiente para impactar os resultados. À medida que cresce, negócios pequenos passam a mover menos o desempenho do grupo.

Outro ponto de pressão está na transparência. A empresa enfrenta críticas por divulgar poucos detalhes sobre o desempenho individual das marcas compradas e pelos cortes de pessoal após aquisições.

Segundo Ferrari, a própria dificuldade para obter crédito junto a alguns bancos ajudou a acelerar a decisão de abrir capital. A listagem aumenta a exposição regulatória e também cria uma nova moeda para negócios futuros: as próprias ações.

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