Com o aumento dos apagões no Brasil, cresce também o interesse por autonomia energética. Segundo pesquisa da Descarbonize divulgada nesta segunda-feira, 9 de março, cerca de 78% dos brasileiros gostariam de investir em sistemas de energia solar com baterias integradas para enfrentar quedas de energia. O dado revela uma mudança de comportamento: a bateria deixa de ser nicho industrial e passa a entrar no radar de residências e empresas.
Hoje, porém, o uso de baterias no país ainda se concentra em indústrias e sistemas isolados da rede. Para que a solução se torne viável em escala, especialistas apontam que o custo precisa recuar. Um leilão previsto para o primeiro semestre de 2026 já traz expectativas de tornar a tecnologia mais competitiva.
O que os brasileiros planejam fazer
Além do interesse em sistemas solares com bateria, o estudo mostra outros comportamentos em crescimento. Cerca de 45% dos entrevistados consideram adquirir baterias para uso independente da rede elétrica. Já 43% apontam a melhoria da instalação elétrica da própria casa como forma de reduzir os impactos das interrupções.
A percepção sobre o futuro também é preocupante. Para 42% dos brasileiros, os apagões devem se tornar mais frequentes nos próximos anos. Outros 30% acreditam que o cenário deve permanecer estável, enquanto apenas 18% avaliam que a situação pode melhorar.
Clima extremo e rede sobrecarregada explicam os apagões
Entre as principais causas das interrupções no fornecimento de energia, os eventos climáticos lideram com folga, citados por 75% dos entrevistados. Em seguida, aparecem a sobrecarga do sistema elétrico por aumento do consumo, apontada por 53%, e a infraestrutura antiga ou com pouca manutenção, mencionada por 52%.
Os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica reforçam essa leitura. Em São Paulo, a frequência de interrupções cresceu 12,8% em 2025, em um ano marcado por episódios de grande porte e pressão regulatória sobre a concessionária Enel. Um dos casos mais recentes ocorreu após um vendaval com rajadas próximas de 100 km/h, que deixou milhões de clientes da região metropolitana sem eletricidade.
O impacto vai além do incômodo doméstico. Para 68% dos brasileiros, a principal consequência das quedas de energia é a interrupção do trabalho, reflexo direto da alta dependência da eletricidade e do avanço do trabalho remoto.
Baterias como aposta da transição energética
Na prática, as baterias funcionam como um “power bank” em grande escala, armazenando eletricidade gerada por painéis solares ou captada da própria rede para uso posterior. Além de reduzir os impactos dos apagões, especialistas apontam que os sistemas de armazenamento devem ter papel cada vez mais relevante na expansão das fontes renováveis, como solar e eólica.
Isso porque o Brasil já produz mais energia solar e eólica do que a rede consegue absorver em determinados momentos. Nesse contexto, as baterias permitem que o excedente seja guardado e utilizado quando necessário, em vez de desperdiçado.
Para Patrick von Schaaffhausen, CEO da Descarbonize Soluções, a autonomia energética se torna uma prioridade diante do aumento dos apagões. Segundo ele, o uso de baterias associado a fontes renováveis protege residências e empresas de interrupções imprevistas e dos prejuízos financeiros que elas causam. O setor de comércio, em especial restaurantes e serviços, aparece como um dos mais afetados pelas quedas, tanto em perdas operacionais quanto em descarte de produtos.
Com a crise climática e um sistema elétrico cada vez mais pressionado, portanto, as baterias consolidam sua posição como uma das principais apostas da transição energética no Brasil para os próximos anos.
