Café brasileiro aguarda impacto da suspensão de tarifas nos EUA

O setor cafeeiro brasileiro reagiu com cautela à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos. O tribunal suspendeu as tarifas impostas pelo governo Donald Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Apesar da notícia positiva, o setor ainda não comemorou.

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) informaram que avaliam os desdobramentos jurídicos com atenção. Além disso, acompanham os próximos passos da Casa Branca antes de qualquer posicionamento definitivo. “O cenário é de análise da decisão e de monitorar os próximos passos da Casa Branca”, afirmaram as entidades.

O motivo da cautela é claro: mesmo com a decisão judicial, os efeitos práticos não devem ser imediatos. Ainda será necessário que as autoridades alfandegárias americanas façam ajustes operacionais para que as mudanças tenham efeito real.

Impacto bilionário e queda nas exportações

As tarifas, implementadas em julho de 2025, causaram um prejuízo de aproximadamente US$ 250 milhões ao setor no ano passado. Embora o governo americano tenha retirado a taxação de alguns produtos brasileiros em novembro, o café solúvel permaneceu na lista. Por isso, a pressão sobre as exportações continuou.

A decisão da Suprema Corte foi tomada por 6 votos a 3. Os ministros concluíram que Trump excedeu sua autoridade ao aplicar tarifas a dezenas de países. Para eles, a competência para instituir tarifas é do Congresso, e não do Executivo via IEEPA. Em consequência, estudo da Universidade da Pensilvânia estima que mais de US$ 175 bilhões em arrecadação tarifária poderão ser reembolsados.

No entanto, o processo não será simples. Segundo José Luiz Pimenta Jr., diretor do Departamento de Relações Internacionais da Fiesp, ainda são necessários ajustes jurídicos e operacionais. Enquanto isso não ocorrer, os importadores continuam recolhendo os tributos normalmente. “Em tese, o importador segue pagando o imposto até que a CBP publique uma norma alinhada à interpretação da Corte”, explicou.

Os números mostram o tamanho do impacto. Entre agosto e dezembro de 2025, os embarques brasileiros de café solúvel para os EUA recuaram cerca de 40% frente ao mesmo período de 2024. No acumulado anual, a queda foi de 28%. Ao todo, os norte-americanos importaram 5,381 milhões de sacas em 2025 — uma redução de 34% em relação ao ano anterior.

Como as tarifas sobre o café chegaram a 50%

Trump começou a impor tarifas logo após retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025. Primeiro, taxou México, Canadá e China. Em abril, estendeu as tarifas a quase todos os países, com mínimo de 10%. Em julho, o Brasil foi duramente atingido. A alíquota básica subiu para 50%, com o objetivo declarado de pressionar o país a cancelar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A situação começou a se resolver apenas em setembro. Após uma série de conversas nos bastidores — envolvendo autoridades, empresários e entidades setoriais — Trump se reuniu com Lula à margem da Assembleia-Geral da ONU. A partir daí, vieram alívios graduais. Carnes, frutas e outros produtos agrícolas foram retirados da lista. Porém, itens como calçados, máquinas e mel seguem sobretaxados.

Segundo a Amcham, ainda hoje 62,9% dos produtos brasileiros exportados aos EUA estão sujeitos a alguma tarifa extra. No total, a redução das exportações brasileiras ao mercado americano somou US$ 1,5 bilhão entre agosto e novembro de 2025.

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