A startup argentina Calice colocou o Brasil entre os mercados prioritários de sua expansão internacional. A empresa desenvolve uma plataforma capaz de simular ensaios agrícolas e estimar o desempenho de sementes, defensivos, fertilizantes e produtos biológicos em diferentes condições ambientais.
A tecnologia combina dados históricos de experimentos de campo com informações sobre clima, solo e manejo. A proposta é ajudar as áreas de pesquisa e desenvolvimento das empresas do agronegócio a antecipar resultados e reduzir parte dos testes físicos necessários antes do lançamento de um produto.
O modelo já foi utilizado por companhias como Syngenta, Basf e Corteva. Atualmente, a Calice mantém contratos com empresas que operam no Brasil, Argentina, Estados Unidos, México e Europa.
Brasil e Estados Unidos devem concentrar a maior parte da expansão nos próximos anos. A escolha considera a escala dos dois mercados agrícolas e a presença de estruturas comerciais locais.
“Nosso foco são Estados Unidos e Brasil”, afirma Pablo Romero, diretor de operações e finanças da Calice. Segundo o executivo, a expectativa é que os dois países avancem em ritmo semelhante dentro dos negócios da startup.
Plataforma simula ensaios agrícolas
A Calice foi criada inicialmente para combinar ferramentas computacionais e edição genética aplicada à agricultura. O plano mudou depois que os fundadores perceberam maior interesse das empresas por soluções capazes de prever resultados de experimentos.
Diante dessa demanda, a startup encerrou as atividades de seu laboratório de biologia molecular e concentrou os investimentos na modelagem computacional.
“Percebemos rapidamente, conversando com as empresas do agro, que o modelo computacional despertava muito mais interesse do que a edição genética”, afirma Ramiro Olivera, cofundador e CEO da Calice.
Um dos principais problemas enfrentados pelas áreas de pesquisa agrícola é o tempo necessário para validar novos produtos. O desenvolvimento de uma variedade de milho, por exemplo, pode levar entre cinco e sete anos, segundo a empresa.
Defensivos e produtos biológicos também precisam ser avaliados em diferentes safras, regiões e condições climáticas. Mesmo após vários anos de testes, os experimentos podem não contemplar toda a diversidade ambiental encontrada quando a solução chega ao mercado.
A plataforma busca preencher parte dessa lacuna. Com dados obtidos em um ou dois anos de ensaios, os modelos projetam o comportamento dos produtos em cenários ainda não testados fisicamente.
“O gargalo da inovação no agro continua sendo o ensaio de campo”, diz Romero.
Mudanças climáticas ampliam demanda por previsões
A variabilidade climática tornou as previsões mais relevantes para o desenvolvimento agrícola. Eventos como secas, ondas de calor e alterações provocadas por fenômenos como El Niño podem modificar o desempenho de sementes e insumos entre uma safra e outra.
Ao incorporar diferentes cenários ambientais, a Calice pretende oferecer às empresas uma visão mais ampla dos riscos e oportunidades associados a cada produto.
Os modelos não eliminam os testes de campo, mas podem ajudar a definir onde, quando e em quais condições os experimentos físicos devem ser realizados. A expectativa é reduzir custos, acelerar decisões e direcionar melhor os recursos destinados à pesquisa.
A startup decidiu concentrar a atuação nas áreas de P&D de grandes empresas, em vez de desenvolver soluções para todas as etapas da cadeia agrícola. Os executivos avaliam que esse segmento apresenta maior potencial de impacto e adoção da tecnologia.
Empresa prepara nova rodada de investimento
A Calice possui uma equipe de 22 profissionais, sendo 20 deles baseados na Argentina. O grupo reúne especialistas em engenharia, biotecnologia, pesquisa, produto, marketing e comunicação.
No Brasil, a operação é liderada por Mauricio Garcia, executivo com passagens por Monsanto, KWS Sementes, TMG e Geneze Sementes. A empresa também mantém uma liderança comercial nos Estados Unidos.
Em 2025, a startup captou US$ 2,5 milhões para ampliar sua presença nos mercados brasileiro e norte-americano. Agora, prepara uma nova rodada de investimento, que deverá superar o valor da anterior.
A companhia já gera receita por meio de contratos comerciais, mas pretende buscar capital adicional para acelerar o desenvolvimento da plataforma e a expansão internacional.
“Hoje nós temos receita própria, mas a velocidade que queremos ter para construir mais tecnologia e crescer mais rápido nos motiva a continuar procurando dinheiro do investidor”, afirma Olivera.
