Trabalhadores da reciclagem são peças-chave da sustentabilidade no Carnaval paulistano

(Júlia Nagle/Heineken/Divulgação

Eventos de grande porte invariavelmente deixam rastros de descarte massivo. Na folia de rua da maior metrópole brasileira, profissionais da reciclagem assumem papel central na gestão sustentável dos resíduos gerados pela celebração.

As projeções do Centro de Inteligência da Economia do Turismo apontam que a festividade deve impulsionar a economia local com cifras próximas aos R$ 7,3 bilhões em 2026, atraindo cerca de 4,7 milhões de foliões.

O sistema de recuperação de materiais descartados ganha relevância estratégica para minimizar os danos ambientais da maior manifestação cultural do país.

Estatísticas nacionais registram mais de 281 mil profissionais atuando na cadeia de reciclagem, embora especialistas estimem que o número real possa alcançar 800 mil pessoas quando considerados trabalhadores informais não contabilizados.

Estes agentes são responsáveis pela maior parte da reciclagem de resíduos urbanos no Brasil – aproximadamente 90% do total – movimentando valores que podem chegar a US$ 5,5 bilhões anualmente. No cenário global, estima-se que entre 15 e 20 milhões de pessoas dependam financeiramente da recuperação de recicláveis.

Apesar de historicamente marginalizados, esses trabalhadores desempenham função ambiental vital. Junto aos mais de 30 mil vendedores informais previstos para este ano, formam uma força de trabalho que mantém a higiene urbana e promove a reutilização de recursos.

A importância econômica e social dessa atividade tem reconhecimento de entidades globais. Sonia Dias, pesquisadora especializada em gestão de resíduos e inclusão social da WIEGO, ressalta que os sistemas de reciclagem nas cidades dependem fundamentalmente desses profissionais de rua.

Segundo ela, as comunidades também colhem benefícios diretos, já que essa atuação impede que materiais como plásticos e latas poluam corpos d’água, vias públicas e zonas costeiras.

Severino Lima Jr, líder da Aliança Internacional de Catadores, reforça o argumento: garantir direitos a esses trabalhadores fortalece modelos de economia circular, combate desigualdades e contribui para centros urbanos mais preparados para desafios ambientais.

Números de 2025 mostram impacto da atuação

Durante o Carnaval do ano passado, 524 profissionais independentes da reciclagem trabalharam nos quatro principais eixos da festividade: Ibirapuera, Barra Funda, Rio Branco e Faria Lima. O resultado foi a recuperação de mais de 32 mil quilos de materiais recicláveis – volume duas vezes superior ao de 2023.

A operação gerou R$ 706,3 mil em rendimentos ao longo de oito dias de trabalho, somando tanto a prestação de serviços quanto a venda dos materiais recuperados. A média de ganho por trabalhador ficou em R$ 848,77 no período, com diária de R$ 106,10 – cerca de 125% acima do valor proporcional do salário mínimo então vigente.

Desafios nas condições de trabalho

Por outro lado, tanto profissionais da reciclagem quanto vendedores informais enfrentam circunstâncias laborais extremamente difíceis: exposição a intempéries climáticas, transporte de cargas pesadas durante longas jornadas e, frequentemente, ausência de infraestrutura mínima como sanitários e pontos de hidratação.

O universo do trabalho informal carnavalesco também engloba os vendedores ambulantes, com estimativa superior a 30 mil pessoas em 2026. Nacionalmente, esse segmento representa 2,3 milhões de trabalhadores, sendo majoritariamente feminino (52,7%), conforme dados da WIEGO.

Na capital paulista, esse contingente soma 210,6 mil profissionais.

Para Oksana Abboud, coordenadora internacional da StreetNet International, a economia das cidades depende diretamente do trabalho dos vendedores de rua, e esse reconhecimento precisa se converter em direitos trabalhistas, proteção social e voz nas políticas públicas.

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