A Copa do Mundo de 2026 deve movimentar cerca de R$ 61 bilhões na economia brasileira, mas o impacto positivo para varejo e serviços vem acompanhado de um alerta financeiro. Levantamento do SPC Brasil mostra que 60% dos consumidores pretendem gastar com produtos e serviços ligados ao torneio, o equivalente a aproximadamente 99,2 milhões de pessoas.
O ticket médio estimado é de R$ 619 por consumidor. A demanda deve beneficiar supermercados, aplicativos de delivery, bares, restaurantes, lojas de roupas temáticas, serviços de TV por assinatura e plataformas de streaming.
O ponto de atenção está no perfil de parte desse consumo. Segundo a pesquisa, 61% dos consumidores que pretendem gastar durante a Copa já possuem contas em atraso. Entre eles, 70% estão negativados em órgãos de proteção ao crédito.
Crédito pode transformar festa em dívida
O Pix deve ser a principal forma de pagamento dos gastos ligados à Copa, citado por 57% dos entrevistados. Além disso, 90% afirmam que pretendem fazer compras à vista.
Apesar disso, 27% dos consumidores dizem que pretendem usar limite do cartão de crédito ou cheque especial para financiar despesas durante o período.
“O crédito pode ser uma ferramenta útil quando existe planejamento. O problema surge quando modalidades de alto custo passam a ser utilizadas para financiar gastos relacionados ao lazer. Nesses casos, uma despesa temporária pode gerar um comprometimento financeiro que se estende muito além do fim do torneio”, afirma João Paulo Travasso Maia, coordenador de soluções do SPC Brasil.
A preocupação cresce porque a Copa concentra gastos em um curto período. Comidas, bebidas, roupas, deslocamentos, bares, restaurantes e serviços de transmissão entram no orçamento ao mesmo tempo, pressionando famílias que já enfrentam dificuldades financeiras.
Apostas esportivas entram no radar
Outro dado do levantamento reforça o alerta. A pesquisa aponta que 41% dos consumidores pretendem realizar apostas financeiras durante a Copa do Mundo.
Entre os entrevistados que pretendem apostar, 21% afirmam que devem fazer apostas em todos os jogos da Seleção Brasileira. O dado mais sensível está na motivação: 74% dos consumidores que pretendem apostar dizem enxergar a prática como uma forma de ajudar no pagamento de dívidas.
Caso obtenham ganhos relevantes, 39% afirmam que pretendem reinvestir o dinheiro em novas apostas, enquanto 34% dizem que usariam os recursos para quitar débitos em atraso.
“Quando a aposta deixa de ser vista como entretenimento e passa a ser percebida como solução financeira, surge um sinal importante de alerta. O pagamento de dívidas depende de renda, planejamento e negociação. Apostar esperando resolver problemas financeiros pode aumentar ainda mais a vulnerabilidade econômica do consumidor”, afirma Maia.
Supermercados e delivery devem puxar gastos
Mesmo com o alerta financeiro, a Copa deve abrir uma janela relevante de vendas para empresas. Entre os produtos mais procurados estão bebidas não alcoólicas, citadas por 68% dos consumidores, petiscos, com 62%, roupas e camisetas temáticas, com 61%, itens para churrasco, com 60%, e cervejas, com 59%.
No setor de serviços, o delivery de comida e bebida lidera a intenção de consumo, citado por 61% dos entrevistados. Na sequência aparecem bares e restaurantes, com 39%, pacotes de TV por assinatura voltados ao esporte, com 33%, e plataformas de streaming, com 30%.
O levantamento mostra que 44% dos consumidores pretendem fazer compras com pelo menos uma semana de antecedência, em busca de promoções e para evitar filas.
As compras presenciais seguem predominantes, especialmente em supermercados, citados por 70% dos consumidores, e lojas de rua, com 33%. Os canais digitais também ganham espaço, com aplicativos de entrega usados por 51% dos entrevistados.
Copa segue como evento social
A Copa continua sendo um evento de consumo coletivo. Segundo o SPC Brasil, apenas 3% dos entrevistados pretendem assistir aos jogos sozinhos. Outros 97% planejam acompanhar as partidas com familiares, amigos ou colegas de trabalho.
A maior parte deve assistir aos jogos com familiares, citados por 77%, e amigos, com 60%. A casa segue como principal local para ver as partidas, mencionada por 86% dos consumidores.
Bares, restaurantes e encontros em casas de amigos também devem movimentar o setor de alimentação fora do lar. Entre quem pretende ver jogos em bares ou restaurantes, os principais critérios de escolha são preço das comidas, ambiente do estabelecimento, qualidade das bebidas e alimentos e preço das bebidas.
“O potencial econômico da Copa é expressivo porque estamos falando de um evento que mobiliza consumo, lazer e convivência social ao mesmo tempo. Para o varejo e os serviços, trata-se de uma oportunidade importante de geração de receita em um curto espaço de tempo. Porém, é fundamental que o consumidor mantenha o planejamento financeiro para que o impacto positivo do evento não se transforme em dificuldades futuras”, afirma Maia.
Marcas patrocinadoras disputam atenção
O estudo também indica que 74% dos consumidores pretendem dar preferência a marcas patrocinadoras da Seleção Brasileira durante o torneio.
Para 53%, essa escolha depende do preço dos produtos. Outros 21% afirmam que dariam preferência aos patrocinadores independentemente do valor.
“O patrocínio esportivo continua sendo um importante ativo para construção de marca. No entanto, em um cenário de orçamento pressionado, o consumidor segue extremamente sensível a fatores como preço, promoções e percepção de valor”, afirma o coordenador do SPC Brasil.
