A Deyel passou um ano e meio preparando sua entrada no Brasil. Seis meses depois de iniciar a operação, o país já responde por 13% da receita global da Optaris, empresa responsável pela plataforma, e concentra 30% das licenças comercializadas no mundo.
Para transformar o crescimento inicial em uma operação permanente, a companhia prevê investir R$ 30 milhões no mercado brasileiro. Os recursos serão direcionados à formação da equipe, à expansão da fábrica de software e ao desenvolvimento de projetos, customizações e aplicações.
A aposta ocorre em um momento no qual ferramentas de inteligência artificial conseguem criar sistemas a partir de comandos em linguagem natural. Para Paulo Cacciari, CEO da Deyel no Brasil, porém, velocidade de programação não resolve sozinha as necessidades das grandes empresas.
“Eu não posso simplesmente pedir para uma IA construir um aplicativo e colocar isso para funcionar dentro de uma empresa. Essa arquitetura empresarial é muito mais exigente”, afirmou em entrevista à Exame.
Brasil já representa 30% das licenças vendidas
Criada há cerca de sete anos dentro da Optaris, a Deyel oferece uma plataforma low code para o desenvolvimento de sistemas corporativos.
A tecnologia foi construída por equipes distribuídas entre México, Argentina, Alemanha e Israel. Embora tenha origem internacional, foi a América Latina que impulsionou a adoção da plataforma, principalmente entre bancos e seguradoras.
A Optaris encerrou 2025 com R$ 220 milhões em faturamento na América Latina. Agora, a empresa pretende transformar o Brasil em seu principal vetor de crescimento na região.
O tamanho do mercado, a concentração de grandes empresas e a demanda por modernização de sistemas influenciaram a decisão de ampliar os investimentos.
“São Paulo é o maior polo econômico no hemisfério Sul do planeta. Nenhum outro lugar tem tantos recursos disponíveis quanto na cidade, no estado e derivando, de certa maneira, para o restante do país”, diz Cacciari.
Operação brasileira exigiu adaptação
A entrada no país envolveu mais do que traduzir a plataforma ou montar uma estrutura comercial. Durante um ano e meio, a companhia analisou quais partes da tecnologia poderiam ser utilizadas sem alterações e quais precisariam ser adaptadas às particularidades brasileiras.
Uma das decisões foi formar uma equipe local. Segundo Cacciari, diferenças de idioma e cultura podem dificultar a comunicação entre clientes e profissionais de desenvolvimento em projetos corporativos.
“O brasileiro quer trabalhar com brasileiro. Ele não gosta de barreira de linguagem, não gosta de barreira cultural. Ele gosta de falar com alguém que entende”, afirma.
A empresa também precisou adaptar sua operação à complexidade tributária e regulatória do país. Sistemas voltados às áreas financeira e contábil, por exemplo, precisam considerar regras municipais, estaduais e federais.
Plataforma passa a oferecer aplicações prontas
Inicialmente, a Deyel vendia sua tecnologia para que empresas e fábricas de software desenvolvessem os próprios sistemas.
A demanda dos clientes levou a companhia a ampliar esse modelo. Algumas organizações passaram a procurar a Deyel não apenas pela plataforma, mas também pelo desenvolvimento completo de aplicações.
Parte desses projetos deu origem a produtos pré-configurados para áreas como gestão de fornecedores, relacionamento com clientes e controle financeiro.
Essas soluções possuem uma estrutura inicial pronta, mas podem ser adaptadas aos processos de cada empresa. A proposta é reduzir o tempo de implementação sem obrigar o cliente a adotar um sistema fechado.
A Deyel passou, assim, a atuar em três frentes: licenciamento da plataforma, desenvolvimento de aplicações sob medida e oferta de produtos ajustáveis.
IA precisa conviver com sistemas existentes
A estratégia da companhia parte do princípio de que grandes empresas não podem substituir de uma vez toda a estrutura tecnológica já utilizada.
Aplicações desenvolvidas com inteligência artificial precisam conversar com sistemas legados, bancos de dados, políticas de segurança e regras de acesso. Também devem seguir exigências de governança e conformidade.
Nesse cenário, a Deyel pretende ocupar o espaço entre a criação rápida de software e a complexidade das operações corporativas.
O modelo low code reduz a necessidade de programação manual em parte do desenvolvimento, enquanto permite configurar fluxos, regras e integrações conforme as necessidades de cada cliente.
Para Cacciari, essa flexibilidade também diminui a resistência das equipes a novas ferramentas, pois evita mudanças completas na forma de trabalhar.
Investimento ampliará equipe e fábrica de software
Os R$ 30 milhões previstos para o Brasil serão aplicados na contratação de profissionais, no fortalecimento da cultura local e na expansão da capacidade de desenvolvimento.
A companhia pretende montar uma estrutura brasileira capaz de atender clientes nacionais e, ao mesmo tempo, utilizar a rede internacional da Optaris.
“Temos um foco em desenvolver o mercado, mas também em desenvolver a empresa e a cultura dela no Brasil”, afirma o executivo.
Depois de alcançar 13% da receita global em seis meses, o desafio será transformar a participação inicial em uma operação com escala própria.
“Eu acredito que a gente tem tudo para, em pouquíssimo tempo, ser um dos maiores players dentro da companhia”, conclui Cacciari.
