O fenômeno do El Niño 2026-27 tem potencial para se tornar um dos eventos climáticos mais intensos em mais de uma década. Por outro lado, no setor agrícola da América Latina, especialmente no Brasil e na Argentina, o impacto tende a se traduzir em ganhos de produtividade e superoferta, o que não necessariamente significa maior lucro para os produtores. É o que indica o estudo Super El Niño risk: more inflation in Asia, oversupply in Latin America yet little disruption in financial markets, publicado pelo time de economistas da Allianz Research, divisão de pesquisa macroeconômica da Allianz Trade, líder mundial em seguro de crédito.
De acordo com o levantamento, dados de episódios anteriores ao El Niño mostram que as safras brasileiras registraram desvios positivos em relação à tendência de cinco anos: a produção de soja chegou a ficar até 4% acima da média histórica (em 2015), enquanto o café arábica atingiu até 5% acima da tendência.
Apesar de o clima mais úmido beneficiar lavouras de grãos e oleaginosas no Sul do continente, o estudo faz um alerta sobre a rentabilidade:
- Queda de preços: O aumento expressivo da oferta tende a pressionar os preços de venda para baixo. Como a demanda por alimentos é inelástica (o consumo em volume não cresce na mesma proporção da queda dos preços), o volume extra não compensa financeiramente.
- Gargalos de armazenagem: A superoferta preenche rapidamente a capacidade de estocagem, encarecendo drasticamente os custos de armazenamento para produtores e tradings.
Impacto regional e riscos inflacionários no Brasil
O estudo ressalta que os efeitos do El Niño no Brasil são regionalmente assimétricos: enquanto as regiões agrícolas ao Sul tendem a ser favorecidas pela umidade, o Norte do país e a bacia amazônica enfrentam riscos de seca.
Essa condição de seca no Norte posiciona o Brasil, ao lado de Colômbia e Peru, entre os países da região com vulnerabilidades inflacionárias específicas ligadas ao evento, podendo impactar os preços dos alimentos, a logística de transporte e a geração de energia elétrica.
Perspectivas de mercado e crédito
No cenário global, os autores acreditam que a melhora na oferta de soja e milho na América Latina deve atuar como um contrapeso natural às pressões inflacionárias globais de alimentos, diferentemente do Leste Asiático e da África Ocidental, que enfrentam riscos severos de seca em culturas como cacau, óleo de palma e arroz.
Para o setor corporativo, a Allianz Trade aponta que exportadores agrícolas brasileiros podem registrar condições operacionais e de crédito mais fortes devido ao maior volume, embora o estresse financeiro possa aumentar para processadores de alimentos e intermediários expostos à volatilidade e à queda dos preços das commodities agrícolas no mercado internacional.
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