A multinacional norte-americana Eli Lilly firmou um acordo estratégico para transferir os direitos exclusivos de comercialização de seu medicamento contra o câncer de mama, Verzenios (abemaciclibe), na China continental para a biofarmacêutica local Innovent Biologics (1801.HK). O movimento ocorre no momento em que a gigante de Indiana busca otimizar a operação no segundo maior mercado farmacêutico do mundo, antecipando-se à futura concorrência de versões genéricas desenvolvidas pelo parque industrial chinês.
Pelo desenho do contrato, cujos termos financeiros não foram revelados pelas companhias, a Innovent assumirá toda a linha de frente comercial, distribuição e marketing do Verzenios em território chinês. A Eli Lilly, por sua vez, reterá a propriedade intelectual e permanecerá como a responsável global pela fabricação, cadeia de suprimentos e pelas pesquisas de desenvolvimento clínico contínuo do composto.
A decisão da Lilly reflete uma estratégia clássica de “gestão de ciclo de vida” de medicamentos de alta receita. O Verzenios, introduzido no mercado chinês em 2021, registrou um faturamento de 1,5 bilhão de yuans (cerca de US$ 221 milhões) em 2025 na China, um avanço sutil frente ao 1,4 bilhão de yuans consolidados no ano anterior, segundo dados da consultoria PharmCube.
Apesar do desempenho sólido em um país onde mais de 350 mil mulheres são diagnosticadas com câncer de mama anualmente, o cenário competitivo mudou substancialmente com a aprovação regulatória, realizada neste ano, de uma versão genérica do medicamento desenvolvida pelo grupo farmacêutico local Qingfeng.
“Do ponto de vista da Lilly, este acordo parece ser uma gestão de ciclo de vida avançado, onde a Innovent pode possivelmente ajudar através de sua forte execução comercial local”, avaliou Cui Cui, chefe da área de saúde da Jefferies na Ásia, em entrevista à Reuters.
Embora o genérico da Qingfeng já tenha recebido o aval das autoridades sanitárias chinesas, analistas apontam que o produto concorrente não deve chegar às farmácias e hospitais de imediato. A expectativa de mercado é de que o lançamento comercial do genérico seja bloqueado até que a patente de proteção ao composto original da Eli Lilly expire oficialmente na China, o que está previsto para ocorrer apenas no final de 2029.
A antecipação da troca de comando comercial visa blindar o posicionamento do medicamento. Casas de análise como a Macquarie Capital ressaltam que transferir a operação para parceiros locais com capilaridade e redes de distribuição consolidadas é uma prática comum entre as grandes corporações globais (Big Pharmacos) para extrair o valor máximo de ativos maduros antes que eles percam a exclusividade de mercado e sofram com a erosão de preços típica da entrada de genéricos.
