Empresas europeias planejam iniciar atividades na América Latina

Documento da UE revela a intenção de acordos comerciais com a América Latina.

Ricardo Stucker/PR

Este foi um dos destaques do estudo “As empresas diante da relação UE-CELAC”, elaborado pelo Conselho Empresarial Aliança pela Iberoamérica (CEAPI) e apresentado em evento com a presença do Secretário-Geral Ibero-Americano (SEGIB)Andrés Allamand, a presidente do CEAPI, Núria Vilanova, e a autora do relatório, Erika Rodríguez Pinzón, pesquisadora do Instituto Complutense de Estudos. O documento destaca que 75% das empresas veem com moderado otimismo o futuro das relações entre a União Europeia (EU) e a América Latina. Ele deixa claro que há uma intenção sustentada das empresas em investir em uma região que desperta grande interesse da Europa.

Andrés Allamand enfatizou que “a América Latina vive um momento de especial relevância, e a Europa a considera cada vez mais importante em questões como meio ambiente, segurança e empresas, sendo estas últimas fundamentais para o crescimento econômico“.

Durante a apresentação, Núria Vilanova destacou que “as empresas europeias viram como a relação com a Rússia se fechava e como a relação com a China era questionada, então direcionaram seu olhar para a América Latina. Alemanha, França e Itália estão intensificando seus esforços diplomáticos e de investimento, enquanto o Reino Unido, após o Brexit, nomeou um novo comissário para a região. Países do Oriente Médio, especialmente os estados petrolíferos do Golfo, veem a Ibero-América como um aliado estratégico e a Espanha como uma ponte para suas operações na América Latina. Além disso, a Índia decidiu desempenhar um papel importante na região, e espera-se uma presença maior desse país nos próximos anos. O mundo hoje está indo por outro caminho, sem dúvida, e é importante que a Espanha não fique para trás nesse processo“.

Divulgação

O estudo mostra que as expectativas empresariais são consistentes com a tendência de estabilidade macroeconômica e recuperação após a pandemia que a América Latina apresentou nos últimos anos. No entanto, é importante notar que as empresas, assim como a população local, apontam a insegurança e a desigualdade social como algumas de suas principais preocupações. É necessário que o diálogo político birregional mantenha uma conexão entre a promoção do comércio, os investimentos e o impacto positivo na agenda social latino-americana. As empresas são parte importante dessa equação. No caso da Europa, destaca-se a preocupação com a falta de mão de obra qualificada, uma área na qual a cooperação birregional pode ser mutuamente benéfica.

As empresas diante da relação UE-CELAC

O CEAPI está ciente da necessidade de incorporar a voz dos empresários na conversa birregional. Por isso, o estudo aprofunda a percepção corporativa sobre os novos instrumentos lançados na cúpula UE-CELAC de 2023, com o objetivo de gerar uma relação estratégica entre a Europa e a América Latina. O estudo incide sobre como as empresas veem a situação internacional e a relação entre as duas regiões e seus recursos, detectando desafios e oportunidades.

Para desenvolver o estudo, foram ouvidas empresas e alguns organismos internacionais comprometidos com a América Latina. Foram realizadas duas mesas redondas com atores multilaterais, dois grupos focais corporativos e uma pesquisa dirigida às empresas. A primeira mesa redonda baseou-se em um diálogo aberto sobre as percepções e contribuições de cada uma das organizações globais presentes, incluindo de sistemas financeiros internacionais. A segunda mesa foi realizada virtualmente para facilitar a participação de empresas latino-americanas. Presidida por Allamand e Enrique Iglesias, Presidente de Honra do CEAPI, ela permitiu que CEOs falassem abertamente sobre suas perspectivas e preocupações.

Nos grupos focais, o diálogo foi impulsionado por um moderador, com quatro empresas em cada rodada. A análise foi complementada por uma pesquisa respondida por 50 empresas associadas ao CEAPI, sendo 29 espanholas, uma suíça e o restante com sede em vários países, incluindo os pertencentes à América Latina.

O documento identifica a enorme importância dos acordos comerciais e de investimento, bem como o interesse das empresas em exportar, importar e investir em ambas as regiões. Além disso, são mencionados obstáculos e riscos, como a falta de mão de obra qualificada, insegurança, instabilidade jurídica e corrupção. Mas também destaca a percepção positiva das oportunidades comerciais e de investimento existentes em ambas as regiões.

Em relação ao ambiente econômico da região, as empresas identificam como principais obstáculos para a expansão de seus negócios o impacto da inflação, o crescimento das taxas de juros, a instabilidade das taxas de câmbio, o aumento dos custos de energia e da incerteza.

No entanto, o estudo destaca a vontade de aproveitar as oportunidades geradas pela região: ¾ das empresas têm uma percepção moderadamente otimista sobre o desenvolvimento das relações entre a Europa e a América Latina. Entre as prioridades dessa parceria, as empresas destacam principalmente os contratos comerciais, como o encerramento do acordo UE-Mercosul ou a modernização dos pactos com Chile e México.

Empresas, atores fundamentais

O levantamento permitiu insights e recomendações sobre como desenvolver acordos bilaterais e regionais entre a União Europeia e os países da América Latina e do Caribe, promovendo o desenvolvimento do setor industrial e a produção de valor agregado, avaliando e comunicando os impactos além do comercial. Além disso, emitiu conselhos sobre como criar mecanismos e diálogos para promover a cooperação econômica entre as empresas das duas regiões e melhorar a capacidade de adaptação aos padrões de sustentabilidade e qualidade, impulsionando o financiamento privado, a cobertura de riscos com instrumentos financeiros inovadores, e apoiando institucionalmente a criação de parcerias público-privadas para o desenvolvimento de investimentos estratégicos.

O documento conclui que “para o próximo evento da UE-CELAC, há muitos deveres a cumprir, incluindo melhorar os mecanismos e recursos para lidar com os desafios e prioridades das empresas, como atores fundamentais da relação birregional. É necessário melhorar a articulação entre os diferentes espaços da relação UE-CELAC, como a cúpula empresarial e as reuniões de economistas como fornecedores de evidências e iniciativas para a tomada de decisões de alto nível“.

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