A pressão para produzir mais carne sem ampliar a área ocupada pela pecuária está mudando a forma como o setor olha para tecnologia, dados e genética bovina.
Com terra mais disputada, custos elevados e cobranças ambientais crescentes, o aumento da produtividade passa a depender menos da expansão do rebanho e mais da qualidade das decisões tomadas antes mesmo do nascimento do animal.
É nesse ponto que atua a erural, plataforma que digitaliza a comercialização de gado, cruza dados genéticos e zootécnicos e usa inteligência artificial para apoiar produtores na escolha de animais mais adequados a cada sistema de produção.
Investida pela Lighthouse, casa de venture capital com foco no Norte e Nordeste, a empresa já movimentou R$ 300 milhões em transações, atendeu cerca de 4 mil pecuaristas e ofertou mais de 200 mil animais puros em sua plataforma.
Genética vira ativo econômico
O Brasil tem um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, com mais de 230 milhões de cabeças, segundo o IBGE. Ainda assim, a produtividade por animal fica atrás de mercados como Estados Unidos e Austrália.
Para Matheus Ladeia, CEO da erural, parte dessa diferença está no acesso desigual a melhoramento genético, dados confiáveis e decisões orientadas por informação.
“A diferença não está só no tamanho do rebanho, mas na qualidade das decisões que o constroem. Em mercados mais maduros, há um uso muito mais intensivo de melhoramento genético, o que resulta em animais mais pesados, ciclos mais curtos e maior eficiência produtiva. No Brasil, esse acesso ainda é desigual, e é aí que entra a tecnologia”, afirma.
A plataforma intermedeia a venda de dois segmentos principais: gado PO, sigla para Puro de Origem, com DNA registrado e foco em reprodução, e gado de corte, destinado ao consumo.
Segundo Ladeia, ampliar o acesso a animais de genética superior pode acelerar ganhos de produtividade no campo.
“Quando você conecta mais compradores a esse tipo de oferta, aumenta a liquidez e acelera a disseminação de genética de qualidade no rebanho. No fim, isso impacta diretamente a produtividade do país”, afirma.
Pecuária ainda toma decisões no escuro
Apesar do avanço tecnológico no agro, parte relevante da pecuária brasileira ainda toma decisões reprodutivas com base em experiência empírica, sem dados genéticos estruturados ou ferramentas de análise.
Indicadores como genética, histórico reprodutivo, eficiência alimentar, taxa de prenhez e desempenho por raça ainda são subutilizados em muitas fazendas, especialmente entre pequenos e médios produtores.
“Isso acontece porque a maioria dos produtores, especialmente os de médio e pequeno porte, ainda toma decisões de reprodução de forma empírica, sem acesso a dados genéticos confiáveis ou sem saber como interpretá-los”, afirma Ladeia.
Segundo o executivo, o mercado de sêmen, embriões e animais de genética superior sempre foi concentrado, caro e de difícil acesso para produtores distantes dos grandes centros.
Plataforma mira pequenos e médios pecuaristas
A erural busca atuar justamente nessa lacuna. A empresa mira principalmente produtores com rebanhos entre 50 e 1.000 animais, faixa que representa uma parte relevante da base produtiva da pecuária brasileira.
A plataforma combina marketplace, dados de comercialização, recomendação, pagamentos e logística. A empresa também possui sistema próprio de pagamentos, com mais de R$ 100 milhões sob gestão, e organiza a entrega dos animais negociados.
Com inteligência artificial, a erural cruza informações como DEPs, genômica, histórico do rebanho, características do bioma, preços, volume de vendas e tendências por raça.
“Hoje, atuamos como uma articulação de dados da genética bovina. É um nicho dentro do nicho da pecuária, mas extremamente relevante e ainda pouco explorado”, afirma Ladeia.
Milhões de vacas ainda usam genética sem registro
O tamanho do desafio aparece nos números da pecuária nacional. Segundo dados apurados pela erural, o Brasil tem cerca de 61 milhões de fêmeas em idade reprodutiva.
O país realiza aproximadamente 15 milhões de inseminações artificiais por ano, resultando em 7,5 milhões de prenhezes. Além disso, cerca de 150 mil touros registrados são comercializados anualmente, com vida útil média de cinco anos, o que representa 750 mil touros ativos.
Considerando que cada touro cobre cerca de 30 vacas, com taxa de concepção de 80%, a empresa estima cerca de 18 milhões de vacas prenhas com genética registrada.
Ainda assim, aproximadamente 36 milhões de vacas são cobertas por touros sem registro. Isso significa produção sem rastreabilidade, sem controle genético e fora dos padrões exigidos pelos principais mercados compradores.
Ganho pode chegar a R$ 1.200 por animal
A escolha genética tem impacto direto no resultado econômico do produtor. Segundo Ladeia, um touro com melhor desempenho pode gerar bezerros com 20 a 30 quilos a mais na desmama.
Esse ganho pode representar de R$ 500 a R$ 1.200 por animal, dependendo do sistema de produção e das condições de mercado.
Em escala, a diferença pode gerar dezenas de milhares de reais por ano sem aumento de área.
“É uma conta direta, já que mais genética acessível significa mais eficiência no campo, maior produção e maior capacidade de exportação. Estamos no limite dessa produção, isso ajuda a reduzir a escassez global de proteína”, afirma o CEO da erural.








