EUA decidem na quarta sobre ‘tarifaço’ ao Brasil

O Palácio do Planalto entrou na reta final de negociações comerciais com Washington sob um clima de ceticismo e forte preparação para o pior cenário. A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a aplicação do “tarifaço” de 25% sobre as exportações nacionais é o desfecho mais provável para a próxima quarta-feira, data limite estabelecida pela gestão de Donald Trump. O impasse representa o ápice da investigação aberta pelos Estados Unidos em julho de 2025 sob o amparo da Seção 301 da Lei de Comércio, mecanismo jurídico tradicionalmente associado a severas disputas econômicas.

Mesmo diante do prognóstico desfavorável, o governo brasileiro adotou a postura diplomática de exaurir todos os prazos regulamentares. Em reunião realizada na última sexta-feira no Palácio do Planalto, o presidente Lula orientou os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) a insistirem nas conversas até o último minuto. A comitiva estuda viabilizar uma reunião extraordinária com o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, embora o encontro bilateral ainda não esteja formalmente agendado.

O cerne da contestação americana foca em pilares estruturais da governança e da soberania brasileiras, com destaque para a arquitetura do ecossistema de pagamentos instantâneos.

O relatório do USTR classifica como “irracional” o papel duplo exercido pelo Banco Central do Brasil, que atua simultaneamente como regulador e operador do Pix. Na visão de Washington, essa centralização estatal cria uma reserva de mercado e desvantagens competitivas para companhias privadas estrangeiras de tecnologia financeira.

Além das questões econômicas, a Casa Branca incluiu pressões de cunho político e institucional no documento de acusação. Os negociadores norte-americanos contestam abertamente decisões recentes de tribunais superiores brasileiros relacionadas à suspensão de perfis e remoção sigilosa de conteúdos em redes sociais, alegando prejuízos a cidadãos residentes em solo americano. Em contrapartida, interlocutores do Palácio do Planalto já asseguraram ao mercado que o Brasil mantém o posicionamento de que as tarifas são injustas e não fará concessões de soberania regulatória, blindando o Pix de qualquer interferência externa.

O impacto prático da canetada americana pode redesenhar os fluxos de comércio bilateral. Um mapeamento preliminar elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) indica que até 4,1 mil produtos da pauta exportadora brasileira correm o risco de sofrer o encarecimento tributário. Entre os setores primários e manufaturados sob maior risco de perdas imediatas de competitividade estão os embarques de açúcar bruto, álcool etílico, molduras de madeira e hidróxido de alumínio.

Por fim, a estratégia de contra-ataque de Brasília será calibrada estritamente após a publicação do decreto final da Casa Branca. O corpo técnico do governo brasileiro espera que o USTR antecipe o detalhamento das cadeias produtivas atingidas antes do comunicado oficial de quarta-feira. O desenho de possíveis medidas de reciprocidade e retaliação tarifária foi temporariamente congelado pelos assessores presidenciais, sob a justificativa de que é indispensável mensurar a extensão exata do prejuízo, item por item, para estruturar uma resposta proporcional e juridicamente fundamentada.

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