A Farm Rio entrou em uma nova etapa de expansão internacional depois de superar R$ 1 bilhão em receita fora do Brasil em 2025. Com faturamento líquido total de R$ 3,4 bilhões no ano passado, a marca carioca já obtém aproximadamente um terço de sua receita no exterior e prepara novos movimentos em mercados como Estados Unidos, Europa e, mais adiante, Ásia.
A expansão ocorre enquanto a controladora Azzas 2154 (AZZA3) avalia alternativas estratégicas para os ativos ligados à Farm. O grupo contratou o Morgan Stanley para assessorar o processo, com o objetivo declarado de destravar valor da marca. Até agora, porém, não há decisão tomada nem proposta formal.
O anúncio provocou reação imediata no mercado: as ações da Azzas subiram 10% após a comunicação. O conglomerado era avaliado em cerca de R$ 3,7 bilhões, segundo os números apresentados pelo InfoMoney.
Para Fábio Barreto, CEO da Farm Rio, a discussão acompanha o potencial de crescimento de uma operação que passou a se diferenciar cada vez mais dentro do portfólio do grupo.
“Dado o enorme potencial que a Farm tem, esse movimento de busca por destravar valor é muito natural”, afirmou o executivo.
Exterior já responde por mais de R$ 1 bilhão
Essa expansão internacional ganhou tração mais forte a partir de 2019. Desde então, a Farm aumentou presença em mercados maduros sem simplesmente reproduzir no exterior o mesmo modelo usado no Brasil.
A operação internacional trabalha com coleções próprias, adaptadas a sazonalidades, perfis de consumidor e ambientes competitivos distintos. Ainda assim, toda a criação permanece centralizada no país.
A empresa tem cerca de 5 mil funcionários apenas na Farm. Fora das lojas, são mais de 800 pessoas, segundo Barreto. Estamparia e desenvolvimento criativo continuam no Brasil.
“Somos uma marca orgulhosamente brasileira, que se inspira no Brasil e no Rio de Janeiro. Conseguimos apresentar esse ponto de vista para o público internacional”, disse.
A estratégia parte da ideia de que a identidade brasileira pode funcionar como elemento de diferenciação em mercados já saturados de oferta.
Estados Unidos concentram expansão física
Metade da receita internacional da Farm já vem dos canais digitais. A empresa mantém um centro de distribuição dedicado nos Estados Unidos para sustentar velocidade de entrega, mas continua tratando as lojas físicas como parte importante da estratégia.
No mercado americano, a marca possui sete lojas permanentes e prevê novas aberturas. Seus produtos também estão presentes em mais de 600 pontos de venda dentro de redes de departamento de luxo, entre elas Nordstrom e Bloomingdale’s.
Para a companhia, a loja física desempenha um papel que vai além da venda direta. Os espaços funcionam como ponto de contato com consumidoras, imprensa, influenciadores, compradores de varejo e fornecedores.
“A loja física é como um portal mágico: ajuda a explicar o contexto da marca”, afirmou Barreto.
Europa ganha lojas fixas e operações sazonais
A expansão europeia começou em 2022 e já levou a Farm a mercados como Londres e Paris.
Além das unidades permanentes, a empresa passou a apostar em lojas temporárias e sazonais em destinos turísticos associados ao verão europeu. A lista inclui Mykonos, Capri, Saint-Tropez, Marbella e Ibiza. Em Mykonos, a marca já mantém uma operação fixa durante a temporada.
A estratégia recupera uma lógica que acompanha a história da própria Farm no Brasil: posicionar a marca em locais ligados a lazer, turismo e momentos de consumo emocional.
Adidas ajudou a testar o apelo global
A internacionalização começou a ser desenhada mais de uma década atrás.
Uma das principais experiências veio em 2014, com uma parceria com a Adidas que permanece ativa. A distribuição internacional das coleções desenvolvidas em conjunto ajudou a testar o potencial da estética da Farm fora do país.
Em 2016, outra colaboração, desta vez com a Anthropologie, ampliou o conhecimento sobre o mercado americano. A experiência trouxe aprendizados em logística, cadeia de suprimentos e distribuição.
A partir daí, a empresa passou a desenvolver uma operação internacional mais independente, com produto e modelagem específicos para os mercados externos.
Marca começou com R$ 1.200 e quase quebrou
A trajetória da Farm contrasta com a escala atual.
A empresa foi fundada pelos amigos cariocas Marcello Bastos e Kátia Barros com investimento inicial de apenas R$ 1.200. Antes de se transformar em uma das marcas brasileiras de moda com maior projeção internacional, passou por pelo menos dois momentos de forte pressão financeira.
O primeiro ocorreu em 2001. Com três lojas abertas, a empresa errou no planejamento de estoque para o fim do ano e descobriu que mantinha cerca de 45 mil peças, três vezes o volume considerado necessário.
A saída foi abrir uma operação temporária em Búzios para acelerar as vendas e reduzir o excesso de estoque.
O segundo momento de dificuldade acabaria contribuindo para a fusão com a Animale, operação que mais tarde daria origem ao Grupo Soma. Anos depois, o Soma se uniu ao grupo Arezzo e formou a Azzas 2154.
Mesmo após sucessivas operações societárias, a Farm manteve seus fundadores próximos e preservou parte relevante da antiga liderança. Segundo a empresa, os principais executivos têm, em média, 17 anos de casa.
Ásia entra no horizonte
Depois de consolidar posições nos Estados Unidos e na Europa, a Farm começa a estudar a Ásia como uma nova frente.
Barreto passou um mês na região e descreveu o mercado como um espaço ainda pouco explorado para a marca e para a própria imagem do Brasil.
A companhia ainda não detalhou um cronograma de entrada, mas considera que o continente pode abrir uma nova etapa do projeto internacional.
Ao mesmo tempo, a Azzas avalia caminhos estratégicos para um ativo que já fatura R$ 3,4 bilhões, ultrapassou R$ 1 bilhão no exterior e passou a ser tratado por analistas como uma das principais fontes de crescimento do grupo.









