O Brasil encerrou 2025 com 60,6 milhões de investidores, o equivalente a 36% da população, segundo o Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da ANBIMA em parceria com o Datafolha. O avanço mostra que mais pessoas passaram a acompanhar produtos financeiros, corretoras e alternativas de investimento.
Apesar do crescimento, especialistas alertam para um desafio que vai além do acesso ao mercado: transformar renda em patrimônio duradouro. A diferença entre ganhar dinheiro e construir riqueza de longo prazo ainda é um ponto sensível para muitos brasileiros.
Segundo a pesquisa, o conhecimento espontâneo sobre produtos financeiros também avançou, passando de 28% para 43% entre 2021 e 2025. Ao mesmo tempo, 64% da população ainda permanece fora do mercado financeiro.
Renda maior não garante patrimônio
Para Sabrina Herrschaft, especialista em planejamento financeiro e previdência privada, o aumento da renda ou da quantidade de investimentos não significa, necessariamente, construção patrimonial.
“Existe uma diferença importante entre ganhar dinheiro e construir patrimônio. Hoje vemos pessoas que investem, empreendem e diversificam suas fontes de receita, mas muitas ainda não possuem um plano estruturado para proteger esse patrimônio e garantir segurança financeira no futuro”, afirma.
A mudança também tem relação com o comportamento das novas gerações. Enquanto grupos mais velhos associavam patrimônio principalmente à compra de imóveis e bens físicos, os mais jovens lidam com uma realidade marcada por mobilidade profissional, economia digital e novos produtos financeiros.
Essa relação mais dinâmica com o dinheiro ampliou o acesso a investimentos, mas nem sempre veio acompanhada de planejamento para aposentadoria, sucessão, proteção financeira e diversificação de longo prazo.
Aposentadoria ainda preocupa
O levantamento da ANBIMA também indica que apenas uma parcela reduzida dos brasileiros que ainda não se aposentaram afirma guardar dinheiro com foco específico na aposentadoria. Ao mesmo tempo, quase metade acredita que sua principal fonte de renda no futuro não virá do INSS.
Para Sabrina, o tema ganha importância em um cenário de aumento da longevidade. Com pessoas vivendo mais e permanecendo por mais tempo no mercado de trabalho, a organização patrimonial passa a ter papel central na proteção financeira das próximas décadas.
“As pessoas estão vivendo mais, permanecendo mais tempo no mercado de trabalho e enfrentando um custo de vida cada vez mais elevado. Construir patrimônio deixou de ser apenas uma questão de acumulação de riqueza e passou a ser uma estratégia de proteção financeira para décadas futuras”, explica.
Planejamento ganha peso
Nesse contexto, instrumentos como previdência privada, diversificação de investimentos e planejamento sucessório passam a ganhar relevância. O ponto central, segundo especialistas, não está apenas em buscar rentabilidade, mas em construir uma estrutura coerente com objetivos de longo prazo.
A expansão do número de investidores mostra uma evolução da cultura financeira no país. O próximo desafio é transformar esse acesso em decisões mais organizadas, com visão de futuro e disciplina.
“Ganhar dinheiro é uma habilidade. Construir patrimônio é um processo. E esse processo exige tempo, planejamento e disciplina. O verdadeiro desafio da nova geração talvez não seja aprender a investir, mas aprender a pensar no futuro com a mesma intensidade com que pensa nas oportunidades do presente”, afirma Sabrina.
