O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que tem enfrentado dificuldades para explicar a executivos e investidores estrangeiros por que o episódio do Banco Master, que causou um dos maiores rombos da história recente do sistema financeiro brasileiro, gerou tanta repercussão além do setor bancário.
Em analogia com o mundo do futebol, Galípolo disse que o banco estava longe de ocupar papel relevante entre as principais instituições do país, já que respondia por menos de 0,5% dos ativos do Sistema Financeiro Nacional (SFN). “É como se fosse um time da terceira divisão. Mais difícil foi para quem teve de liquidar o Bamerindus, o Econômico, o Nacional, que eram bancos que tinham relevância sistêmica”, declarou em evento promovido pela Associação Brasileira de Bancos (ABBC), em São Paulo, nesta segunda-feira (09).
Investigação transcende questão regulatória
O presidente da autoridade monetária destacou que, quando se entende que o tema transcende a questão da regulação e estabilidade do sistema financeiro, o BC deve cumprir o que determina a legislação: colaborar com a Polícia Federal e o Ministério Público.
Segundo Galípolo, o BC identificou, em novembro de 2024, dificuldades de captação e problemas de liquidez no banco. A instituição foi chamada e teve seis meses de prazo para apresentar correções. “A diretoria de fiscalização, que foi quem emitiu essa espécie de ‘cartão amarelo’ para o Master, começou a levantar dúvidas, em janeiro, sobre movimentações de carteira”, explicou.
Evidências de irregularidades
A partir daí, um grupo de trabalho criado pela diretoria do BC não encontrou evidências de que determinadas carteiras existissem de fato. “Seria normal que houvesse venda de ativos, mas isso aconteceu a partir da formação de novas carteiras”, afirmou. Diante disso, foi emitido ao mercado um documento chamado “notícia de fato”. “O Banco Central não notícia crime e sim fatos que precisam ser investigados pela Justiça e Ministério Público.”
Essa ação do BC ocorreu durante o processo de análise de uma possível aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Em setembro, a autoridade monetária vetou a operação. No mês seguinte, foi decretada a liquidação do banco, um dia após o anúncio de que o grupo Fictor compraria a instituição de Daniel Vorcaro.
“Graças ao trabalho, feito em conjunto com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), foi possível constituir um processo bem fundamentado de rejeição da compra pelo BRB e do voto pela liquidação do Master”, explicou Galípolo.
Tentativa frustrada de autoliquidação
Segundo o presidente do BC, Vorcaro chegou a propor, em setembro, uma “saída organizada”, no modelo de uma autoliquidação, com iniciativa de venda para fundos árabes, que não se concretizou.
“Isso não aconteceu e foi constatado que o banco tinha, em novembro, apenas R$ 4 milhões em caixa, com compromissos de pagamento de R$ 120 milhões em CDBs somente naquela semana. Já havia um processo sancionador desde o primeiro trimestre de 2025 porque o banco não estava cumprindo o depósito compulsório”, relatou.
Responsabilização individual
Na defesa do processo de liquidação, Galípolo argumentou que o trabalho dos técnicos é buscar, ao máximo, preservar as instituições e atribuir responsabilidades às pessoas que ocupavam a linha de frente. “Não cabe penalizar a instituição. Ela é vítima de um eventual problema cometido por quem tomou decisões. A investigação do caso do Banco Master é das pessoas.”
Segundo o presidente do BC, é preciso compreender que o problema, no caso do Master, não foi oferecer rendimentos bem acima do CDI, mas sim a garantia de que esses pagamentos seriam honrados.
Apoio de Haddad e Lula
Durante o evento da ABBC, Galípolo também agradeceu ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que tem feito declarações públicas de apoio à autoridade monetária na condução do episódio do Master.
Ele citou ainda o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o indicou para o comando do BC em agosto de 2024. Galípolo assumiu o cargo em 1º de janeiro de 2025, substituindo Roberto Campos Neto.
“Agradeço a Deus por estar passando por um processo como este tendo o presidente Lula no comando. Não só pela forma como ele reforçou a autonomia do Banco Central e da Polícia Federal, mas pela tranquilidade de que ninguém nos pergunte o que está sendo descoberto”, afirmou. “A experiência dele, que já passou por muitas crises durante seus governos, é muito importante.”
Ao contrário do que ocorreu em outros momentos da fala, quando recebeu aplausos expressivos, as palmas após a menção a Lula foram mais contidas pela plateia do evento.
