Um plano de celular pode começar a aparecer dentro do aplicativo do banco, ao lado da conta, do cartão, dos investimentos e dos programas de pontos. Esse é o mercado que a Gigs tenta abrir ao criar uma infraestrutura para que bancos, fintechs e empresas digitais vendam telefonia com marca própria sem precisar operar como uma companhia de telecomunicações.
Fundada em 2020 no Vale do Silício por Hermann Frank e Dennis Bauer, a startup funciona como uma camada tecnológica entre empresas, redes móveis, sistemas de cobrança e regras regulatórias. A proposta é permitir que companhias lancem serviços móveis sem montar uma operadora virtual do zero.
A Gigs já captou US$ 93,1 milhões em quatro rodadas e tem investidores como Ribbit Capital, Google, Y Combinator, Speedinvest e BoxGroup.
Telefonia dentro do app financeiro
O exemplo mais recente da plataforma é o Cash App Mobile, lançado nos Estados Unidos pelo aplicativo financeiro da Block. O serviço oferece plano de celular com 5G ilimitado na rede da AT&T por US$ 40 mensais, com impostos incluídos. A operação roda com a infraestrutura da Gigs.
A contratação acontece dentro do próprio Cash App, sem contrato de longo prazo, análise de crédito ou visita a loja física. O usuário gerencia dinheiro, pagamentos e telefonia no mesmo ambiente.
A lógica também vale para bancos digitais, fintechs, companhias aéreas e plataformas de benefícios. A Gigs já trabalha com nomes como Nubank, PicPay, LATAM, Revolut, Klarna, OnePay e Cash App.
Como funciona a Gigs
A startup se define como um sistema operacional para serviços móveis. Em termos simples, ela conecta a marca que vende o plano, a operadora que entrega o sinal e os sistemas que fazem ativação, cobrança, suporte e gestão da assinatura.
Antes, uma empresa que quisesse vender telefonia precisava criar uma MVNO, sigla em inglês para operadora móvel virtual. Esse modelo usa a rede de empresas tradicionais, mas exige licenças, integrações técnicas, negociação com operadoras e equipe especializada.
A Gigs tenta reduzir essa barreira. Ela negocia capacidade no atacado com redes móveis, cuida de parte regulatória e entrega uma integração única para bancos e plataformas digitais.
Com isso, a empresa cliente passa a cuidar da experiência dentro do aplicativo. A ativação, o plano, a cobrança e o suporte aparecem para o usuário final como parte do ecossistema da marca que ele já usa.
Brasil vira aposta da startup
O Brasil entrou no radar da Gigs como um dos mercados mais promissores para o modelo. A empresa já atende clientes locais em planos de viagem e agora prepara a oferta de planos nacionais.
Para isso, contratou uma equipe brasileira, está abrindo escritório em São Paulo e trabalha com Anatel e operadoras locais.
A chegada ao país acontece em um ambiente mais favorável para operadoras virtuais. Segundo Rafael Plantier, vice-presidente de growth da Gigs, o leilão do 5G e as regras definidas após a venda da Oi abriram mais espaço para esse tipo de operação.
O avanço do eSIM também ajuda. Como o chip digital permite ativação sem cartão físico, bancos e fintechs conseguem oferecer planos de celular com menos etapas e menos fricção para o consumidor.
Nova fase das operadoras virtuais
Operadoras móveis virtuais não são novidade. Por anos, esse mercado foi associado a planos mais baratos para públicos específicos, como imigrantes em países da Europa.
A nova geração, porém, tem outra lógica. Bancos e plataformas digitais não querem apenas vender o plano mais barato. A telefonia passa a fazer parte de pacotes de relacionamento, contas premium, programas de pontos, benefícios de viagem e serviços recorrentes.
No Revolut, o celular pode estar ligado a pontos. Na Klarna, pode entrar em uma assinatura. No Nubank, a conectividade pode ser associada a produtos financeiros e clientes de maior renda.
Essa mudança altera o público-alvo. Em vez de mirar apenas quem busca economia, a proposta passa a disputar consumidores que valorizam conveniência, roaming internacional, ativação rápida e gestão dentro de um aplicativo conhecido.
IA entra no suporte e na gestão de dados
A inteligência artificial tem duas funções na operação da Gigs. A primeira está no atendimento. A empresa começou a assumir parte do suporte em nome dos parceiros, com automação dentro dos aplicativos.
Isso permite resolver tarefas como adicionar linhas, mudar pacotes ou responder dúvidas sem depender sempre de atendimento humano.
A segunda frente está na previsão de consumo de dados. Como a Gigs compra capacidade no atacado, precisa estimar quanto cada perfil de usuário tende a consumir. Quanto melhor essa previsão, maior a eficiência na negociação com operadoras e na gestão dos planos.
