O Grupo Pão de Açúcar (GPA) admitiu, em balanço divulgado nesta terça-feira (24), que há risco real sobre a continuidade de suas operações. O alerta consta nas notas explicativas do resultado do quarto trimestre de 2025 e foi confirmado pela auditoria Deloitte.
O principal motivo é financeiro: a empresa tem R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento ainda em 2026 e, até agora, nenhum contrato de renegociação firmado.
O quadro é pesado. A empresa encerrou 2025 com capital circulante líquido negativo de R$ 1,22 bilhão, e a dívida líquida consolidada chegou a R$ 2 bilhões — cerca de R$ 700 milhões acima do ano anterior. Só os encargos financeiros consumiram R$ 920 milhões ao longo de 2025, quase três vezes o valor de 2024.
O problema central é simples de enunciar, mas difícil de resolver: a operação gera caixa, mas os juros consomem mais do que ela produz. Com a Selic em patamar elevado, o custo da dívida tornou-se o maior obstáculo à sobrevivência do grupo.
Prejuízo menor, mas estrutura frágil
O GPA registrou prejuízo de R$ 572 milhões no quarto trimestre de 2025 — 65,8% menor do que no mesmo período de 2024. A melhora, porém, tem ressalvas: boa parte do resultado veio da venda da participação na financeira FIC ao Itaú, um efeito contábil, e não de uma virada operacional consistente.
No varejo físico, os sinais são positivos. As vendas nas mesmas lojas cresceram 2,7%, com alta em todos os formatos — o Pão de Açúcar avançou 1,8% e o Extra Mercado, 4%. No digital, o grupo chegou a quase R$ 700 milhões em vendas, alta de 7% na comparação anual.
A Deloitte, no entanto, foi direta em suas ressalvas. O GPA não tem contratos firmados para renegociar dívidas nem para vender créditos tributários — e essas ações, segundo a auditoria, “não estão totalmente sob o controle” da companhia. O alerta formal de “incerteza relevante”, incomum em empresas de capital aberto, deixa claro que a solução depende de terceiros: bancos credores, compradores de créditos fiscais e do próprio comportamento da economia.
O plano e a janela estreita
A administração anunciou um conjunto de medidas. O corte previsto é de ao menos R$ 415 milhões nas despesas operacionais, com início já no primeiro trimestre. Os investimentos foram cortados para entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões — metade do desembolsado em 2025. A empresa também negocia o alongamento das dívidas com credores e tenta transformar créditos tributários em caixa.
O tempo, porém, é curto. Os principais vencimentos estão concentrados ao longo deste ano.
O mercado reagiu mal. Os papéis do GPA caíam cerca de 8% no pregão desta quarta-feira (25), negociados a R$ 2,88, enquanto o Ibovespa subia e batia recorde. No acumulado de 2026, as ações já perdem cerca de 25%. Sem acordos concretos e sem conversão de créditos em caixa, o risco apontado pela própria auditoria segue no horizonte.