Nascida em meio à revolução tecnológica, a Geração Z ingressa no mercado de trabalho justamente quando a inteligência artificial ganha espaço nas empresas e passa a integrar atividades antes realizadas exclusivamente por pessoas. A presença cada vez maior dessa tecnologia nas rotinas profissionais tem levantado discussões sobre como os jovens trabalhadores percebem e se relacionam com essa mudança.
Segundo um recente levantamento realizado pela Gallup, empresa global de análise e consultoria de gestão, apesar de continuarem usando ferramentas de IA no dia a dia, 48% dos jovens inseridos no mercado de trabalho afirmam enxergar a tecnologia mais como um risco do que como um benefício no ambiente profissional.
Para o Adm. Rogério Parente, coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias – GEAPE Tech, do Conselho Regional de Administração de São Paulo – CRA-SP, o dado revela não uma rejeição, mas um problema de confiança dos jovens em relação à inteligência artificial. “A Geração Z usa a tecnologia com naturalidade e sabe que a IA fará parte do trabalho. O receio aparece quando a ferramenta vem associada ao aumento de cobrança com metas mais agressivas e, principalmente, à sensação de que a performance humana passará a ser comparada o tempo todo com a velocidade e a produtividade da máquina”, afirma.
Esse comportamento da Geração Z faz com que os gestores e as empresas tenham um novo olhar para o uso da inteligência artificial em suas atividades cotidianas. Segundo Parente, o maior desafio da liderança está em orientar com clareza os colaboradores sobre como a ferramenta será utilizada, além de estabelecer limites para sua aplicação dentro da organização.
“O líder terá de cuidar de três frentes ao mesmo tempo. A primeira é a transparência: é preciso deixar claro se a IA será usada para apoiar o trabalho, melhorar decisões, reduzir tarefas operacionais ou redesenhar funções. A segunda é o desenvolvimento, que consiste em preparar as pessoas para usar essas ferramentas com critério. E, por fim, a confiança, para mostrar na prática que a tecnologia e as pessoas não estão em lados opostos”, comenta o coordenador do GEAPE.
Além disso, Parente alerta que o principal erro dos gestores é tratar a inteligência artificial apenas como uma questão técnica, deixando de considerar seus impactos culturais, comportamentais e, principalmente, de gestão. “Quando a empresa implanta a IA sem diálogo, sem capacitação e sem parâmetros, ela aumenta a insegurança. Quando envolve as equipes, explica os objetivos e cria espaço para aprendizagem, a tecnologia passa a ser percebida como apoio, e não como ameaça”, explica.
Desta forma, para que a ferramenta seja incorporada de forma mais saudável ao ambiente de trabalho, especialmente entre a Geração Z, o especialista defende que as companhias priorizem uma implementação centrada nas pessoas. “Uma adoção mais saudável exige clareza de propósito, treinamento, regras de uso e revisão dos indicadores. Se a IA é usada apenas para encurtar prazos e elevar metas, ela tende a gerar ansiedade, resistência e perda de confiança. Isso pode ser muito sensível entre os mais jovens, que, em sua maioria, ainda estão construindo repertório profissional”, observa.
Ao lado do grande avanço da inteligência artificial, as competências humanas seguem entre os recursos mais valorizados pelo mercado de trabalho, ganhando ainda mais relevância em um cenário de rápidas transformações tecnológicas.
Especialistas afirmam que, diante desta nova realidade, habilidades como pensamento crítico e a capacidade de fazer perguntas transformadoras se tornam indispensáveis para empresas e profissionais que desejam se destacar. De acordo com o coordenador do GEAPE, as ferramentas de IA são eficientes para organizar dados, automatizar tarefas e acelerar o processo de análises. Porém, o fator humano continua sendo decisivo para interpretar os resultados gerados e compreender suas consequências.
“A automação torna ainda mais importantes as competências que a tecnologia não consegue reproduzir plenamente, como senso crítico, discernimento, empatia, criatividade, comunicação e capacidade de lidar com situações ambíguas. A máquina pode sugerir caminhos, mas cabe ao profissional avaliar o que é prudente e ético”, diz Parente.
Na prática, isso significa usar a inteligência artificial como apoio, sem abrir mão da análise e da responsabilidade humana. Uma forma de estimular esse uso mais consciente, conforme avalia Parente, é incentivar que os colaboradores expliquem os critérios adotados, as hipóteses consideradas e os possíveis riscos envolvidos nas respostas geradas pelo recurso, em vez de apenas reproduzirem seus resultados.
Além disso, o coordenador do GEAPE também menciona outro fator importante: estimular a cultura de revisão. “A IA pode errar, inventar dados, simplificar problemas complexos ou reproduzir vieses. Por isso, o profissional precisa aprender a questionar a resposta, confrontar fontes, testar coerência e adaptar a recomendação à realidade concreta da empresa”, explica o especialista.
Na avaliação de Parente, as empresas que conseguem equilibrar inovação tecnológica e valorização das pessoas tendem a obter melhores resultados no uso da inteligência artificial, especialmente entre os profissionais da Geração Z. Para ele, o diferencial não está apenas na implementação de novos recursos, mas na forma como as organizações pensam o futuro do trabalho e o papel das pessoas nesse processo.
“As organizações que fazem melhor essa transição não começam pela ferramenta, e sim pela pergunta: ‘Que tipo de trabalho queremos construir e que papel as pessoas terão nesse novo contexto?’ Essa diferença muda tudo”, afirma Parente.
Por fim, o coordenador do GEAPE ressalta que a tendência é que as companhias mais bem-sucedidas sejam aquelas capazes de utilizar a IA como complemento das capacidades humanas, e não como substituta. “As empresas que entenderem isso terão mais do que ganho de produtividade. Elas terão equipes mais preparadas, decisões mais eficazes e uma cultura que consiga atravessar mudanças”, conclui Parente.
