A Intel avalia que sua operação na América Latina mantém uma trajetória de crescimento, apesar da escassez global de semicondutores e das dificuldades enfrentadas pela companhia nos últimos anos. Para avançar na região, a fabricante aposta principalmente na demanda por processadores usados na fase de execução de modelos de inteligência artificial.
O negócio latino-americano é liderado desde maio por João Bortone, diretor-geral da Intel para a região. Segundo o executivo, a presença da marca em países como o Brasil chega a superar a observada em alguns mercados mais maduros, embora limitações de oferta ainda impeçam a companhia de atender integralmente à demanda.
“O negócio continua sendo saudável e continua em crescimento. Poderia ser mais? Poderia. Mas a questão de supply também nos afeta, já que não conseguimos suprir 100% do mercado no momento”, afirmou Bortone à Bloomberg Línea.
O executivo assumiu a posição em 4 de maio, no lugar de Gisselle Ruiz Lanza, que passou a liderar a operação da Intel na Europa, Oriente Médio e África.
Inferência vira principal aposta da Intel
A estratégia da companhia está concentrada na chamada inferência, etapa em que modelos de inteligência artificial já treinados são utilizados para executar tarefas, responder a comandos e operar aplicações nas empresas.
Enquanto o treinamento de grandes modelos depende principalmente de GPUs e de data centers de alta capacidade, a execução cotidiana dessas ferramentas também exige processadores, servidores e infraestrutura distribuída.
É nessa fase que a Intel pretende aproveitar sua presença no mercado de CPUs. A avaliação interna é que o avanço dos agentes de IA, aplicações empresariais e sistemas automatizados ampliará significativamente a demanda por processadores.
“A inferência é uma onda muito maior do que o treinamento”, disse Bortone. Segundo ele, é nessa etapa que a inteligência artificial chega efetivamente às empresas, aos governos e aos consumidores.
Estimativa do Citigroup aponta que o mercado de CPUs para servidores poderá saltar de US$ 29,3 bilhões em 2025 para aproximadamente US$ 132 bilhões em 2030. A expansão seria impulsionada principalmente por aplicações de IA agêntica.
Pelas projeções do banco, a Intel poderá deter 47% desse mercado ao fim da década, seguida pela AMD, com 34%, e por fabricantes baseados em arquitetura Arm e outros concorrentes, com os 19% restantes.
Escassez ainda limita mercado de computadores
A falta de componentes continua afetando tanto o segmento de computadores quanto os projetos de data centers. No mercado de PCs, a expectativa da Intel é de alguma melhora durante o segundo semestre de 2026.
Os prazos de entrega variam conforme os produtos, os clientes e a complexidade dos projetos. Ainda assim, Bortone afirma que a companhia vem conseguindo atender seus parceiros, embora abaixo do volume desejado.
A situação dos data centers é considerada mais complexa. A forte procura por infraestrutura de inteligência artificial pressiona a capacidade de produção de chips, servidores, sistemas de energia e outros componentes utilizados nesses ambientes.
Para reduzir os gargalos, a Intel trabalha na ampliação de sua rede de fábricas e na oferta de serviços de produção e encapsulamento avançado de semicondutores.
Operação regional se aproxima dos clientes
Na América Latina, a estratégia comercial envolve ampliar a proximidade com fabricantes de computadores, provedores de nuvem e empresas que utilizam infraestrutura de processamento em larga escala.
Entre os parceiros citados pelo executivo estão fabricantes como Lenovo, Dell e Positivo, além de plataformas de computação em nuvem como Microsoft Azure, Amazon Web Services e Google Cloud.
Bortone pretende adotar uma gestão orientada por agilidade comercial e contato direto com os clientes. O executivo já trabalhou anteriormente na Intel e também acumulou passagens por Google e Dell.
“O papel da Intel é mover o mercado, independentemente da construção de cada negócio”, afirmou.









