A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, será o primeiro quilombo tombado do Brasil. O reconhecimento oficial acontece nesta terça-feira, 10 de março, durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O tombamento inaugura o Livro do Tombo de Documentos e Sítios Detentores de Reminiscências Históricas de Antigos Quilombos, criado pela Portaria Iphan nº 135, de novembro de 2023. Trata-se de um marco inédito na política de preservação do patrimônio cultural brasileiro.
Um gesto de reparação histórica
Para o presidente do Iphan, Leandro Grass, o tombamento representa um ato de justiça com as comunidades quilombolas. Segundo ele, o processo foi construído com a participação direta dos moradores, que atuaram como protagonistas em cada etapa.
Grass também adiantou que outros territórios quilombolas devem receber o mesmo reconhecimento nos próximos anos. Além disso, a portaria que regulamentou o procedimento estabelece princípios como autodeterminação e consulta prévia, livre e informada das comunidades antes de qualquer decisão.
A história de Tia Eva
O quilombo foi fundado por Eva Maria de Jesus (1848 a 1929), benzedeira e alforriada que chegou ao que era então o sertão sul do antigo Mato Grosso e constituiu uma comunidade rural de resistência negra. Com o tempo, o território se integrou ao contexto urbano de Campo Grande.
Para o superintendente do Iphan no Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, o tombamento valoriza o protagonismo de uma mulher negra que, recém liberta, construiu um legado comunitário e religioso de grande relevância histórica.
O que significa para quem vive lá
A arquiteta Rayssa Almeida Silva, moradora da comunidade e participante ativa do processo de tombamento, enxerga o reconhecimento como uma homenagem aos mais velhos e um instrumento para despertar o interesse das gerações mais jovens. Segundo ela, muitas pessoas que vivem em Campo Grande desconhecem a história da comunidade. Por isso, o tombamento cumpre também o papel de ampliar a visibilidade dessa trajetória.
Nilton dos Santos Silva, tataraneto de Tia Eva, espera que o reconhecimento atraia visitantes, viabilize reformas e mantenha viva a memória de onde tudo começou. Para ele, tudo o que construiu como pessoa vem das gerações que o antecederam.
Como o processo foi conduzido
O processo de tombamento começou no início de 2024, a partir do diálogo dos técnicos do Iphan com os moradores do quilombo. A Portaria nº 135 orientou todo o trabalho e criou um Livro do Tombo exclusivo para quilombos, com princípios antirracistas e foco no reconhecimento da resistência quilombola contra a escravização e a discriminação histórica. Portanto, o tombamento de Tia Eva não é apenas um registro patrimonial, mas o início de um ciclo mais amplo de reconhecimento e reparação.
