Comprar um imóvel continua no plano de muitos jovens brasileiros, mas a conta ficou mais difícil de fechar. Preços em alta, juros elevados, aluguel mais caro e renda pressionada estão empurrando a Geração Z para uma relação diferente com a moradia.
O resultado aparece em duas frentes. De um lado, mais brasileiros vivem de aluguel. De outro, jovens adultos permanecem por mais tempo na casa dos pais, em um movimento conhecido como Geração Canguru.
Segundo pesquisa da Ipsos encomendada pelo QuintoAndar, feita com 2.485 brasileiros entre agosto e setembro de 2025, 47% da Geração Z dizem não ter dinheiro para dar entrada ou financiar um imóvel. Outros 30% apontam os preços altos como obstáculo, enquanto 21% citam os juros.
Entrada, parcelas e aluguel apertam o orçamento dos jovens
O problema começa antes mesmo do financiamento. Hoje, os bancos costumam financiar entre 65% e 70% do valor do imóvel, o que obriga o comprador a juntar uma entrada alta. A essa conta ainda se somam gastos com escritura, cartório e ITBI.
Com a Selic em 14,5% ao ano, as taxas de financiamento imobiliário nos grandes bancos giram entre 11% e 12% ao ano em 2026, além da Taxa Referencial. Na prática, isso aumenta o valor das parcelas e reduz o número de jovens com renda suficiente para conseguir aprovação de crédito.
Guardar dinheiro também virou uma tarefa mais difícil. Na pesquisa, 37% dos jovens afirmam que gostariam de poupar, mas as despesas atuais consomem toda ou quase toda a renda.
Moradia alugada ganha espaço no Brasil
Dados da PNAD Contínua 2025, do IBGE, mostram uma mudança relevante no perfil habitacional do país. A proporção de domicílios alugados passou de 18,4% em 2016 para 23,8% em 2025.
No mesmo período, a fatia de domicílios próprios já quitados caiu de 66,7% para 60,2%. Em números absolutos, o total de brasileiros vivendo de aluguel subiu de 12,2 milhões para 18,9 milhões, alta de 55%.
Nem a locação trouxe alívio para quem não consegue comprar. O valor médio do aluguel passou de R$ 30,37 por metro quadrado em março de 2020 para R$ 52,34 em março de 2025, avanço de 72% em cinco anos.
Imóveis sobem e crédito fica mais seletivo
Quem tenta comprar também enfrenta imóveis mais caros. Em 2025, os residenciais acumulavam alta de 6,52%, a segunda maior valorização dos últimos 11 anos pelo Índice FipeZAP. O preço médio nacional chegou a R$ 9.611 por metro quadrado em dezembro.
O movimento veio depois de um 2024 já forte para o setor, quando os preços avançaram 7,73%, maior variação anual desde 2013 e acima da inflação ao consumidor de 4,64% no período.
Esse cenário pesa sobretudo para a classe média. Enquanto o programa Minha Casa, Minha Vida segue aquecido e pode atingir recorde de 600 mil unidades vendidas, segundo a Abecip, os financiamentos com recursos da poupança pelo SBPE recuaram mais de 20% em 2025.
Geração Canguru deixa de ser exceção
Com financiamento caro e aluguel alto, sair da casa dos pais deixou de ser apenas uma decisão de estilo de vida. Para muitos jovens, tornou-se uma necessidade financeira.
Cerca de um em cada quatro brasileiros entre 25 e 34 anos ainda vive com a família, segundo o IBGE. Há 12 anos, a proporção era de um para cada cinco. O fenômeno aparece com mais força entre homens e no Sudeste, região com custo de vida mais elevado.
A tendência também ocorre fora do Brasil. Nos Estados Unidos, levantamento da Harris Poll com dados da Bloomberg mostrou que 45% dos adultos entre 18 e 29 anos vivem com a família, o maior percentual desde a década de 1940. Na mesma pesquisa, 74% afirmaram que os jovens norte-americanos enfrentam uma situação econômica que dificulta o sucesso financeiro.









