Manaus usa drones para prevenir queimadas com chegada do El Niño

(Prefeitura de Manaus/Divulgação)

A Prefeitura de Manaus iniciou uma série de ações preventivas para enfrentar os impactos esperados do El Niño na Amazônia. O plano combina tecnologia, monitoramento ambiental e preparação logística para reduzir os efeitos da estiagem, das queimadas e da queda dos níveis dos rios, fenômenos que costumam se intensificar durante a atuação do evento climático. A estratégia está sendo implementada antes do período mais crítico da seca, quando comunidades ribeirinhas passam a enfrentar dificuldades de abastecimento e locomoção.

Entre as principais medidas anunciadas está o uso de drones equipados com sensores térmicos para identificar focos de calor e monitorar áreas com maior risco de incêndios. Os equipamentos permitirão o acompanhamento em tempo real de regiões vulneráveis, auxiliando na emissão de alertas e na adoção de ações preventivas antes que os focos se transformem em queimadas de grandes proporções.

A iniciativa integra uma campanha mais ampla chamada “Queimada é Crime”, que busca conscientizar moradores e produtores rurais sobre os riscos ambientais, econômicos e sociais provocados pelos incêndios. A prefeitura avalia que a prevenção será fundamental para evitar a repetição dos problemas registrados nos últimos anos, quando a fumaça das queimadas comprometeu a qualidade do ar e afetou a saúde da população.

Monitoramento da qualidade do ar ganha reforço

Além dos drones, a capital amazonense ampliará o monitoramento da qualidade do ar por meio do aplicativo SELVA, desenvolvido em parceria entre a Defesa Civil Municipal e a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A plataforma mede a concentração de partículas presentes na atmosfera, como fumaça e poeira, e envia alertas em tempo real sobre queimadas e condições ambientais.

O sistema permitirá que autoridades acompanhem rapidamente alterações nos índices de poluição atmosférica e adotem medidas para proteger a população, especialmente crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias, que costumam ser os grupos mais afetados durante períodos de fumaça intensa.

As ações também contam com apoio de previsões hidroclimáticas elaboradas por pesquisadores da UEA. Os estudos auxiliam o acompanhamento das condições meteorológicas e hidrológicas, permitindo que a prefeitura planeje intervenções com antecedência e organize estratégias de resposta para cenários mais severos de estiagem.

El Niño preocupa autoridades

A preocupação com o fenômeno climático aumentou após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmar que o El Niño já está estabelecido. As projeções indicam 63% de probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, podendo figurar entre os mais intensos registrados desde a década de 1950.

Modelos climáticos internacionais apontam aquecimento superior a 3°C nas águas do Oceano Pacífico. Historicamente, esse cenário está associado à redução das chuvas na Amazônia, aumento das temperaturas e queda significativa dos níveis dos rios, fatores que ampliam o risco de queimadas e dificultam o abastecimento de comunidades isoladas.

Para minimizar esses impactos, a prefeitura pretende utilizar caminhões-pipa em áreas de vegetação mais suscetíveis ao fogo, mantendo o solo umedecido e reduzindo as chances de propagação de incêndios. A medida faz parte de um conjunto de ações voltadas à prevenção, em vez da simples resposta a emergências já instaladas.

Experiência da seca histórica orienta planejamento

Grande parte das medidas foi inspirada na Operação Estiagem realizada em 2024, quando o Amazonas enfrentou uma das piores secas de sua história recente. Naquele período, o rio Negro atingiu níveis recordes de baixa, afetando cerca de 750 mil pessoas e levando todos os municípios do estado a decretarem situação de emergência.

Durante a operação, a prefeitura antecipou o envio de suprimentos para comunidades ribeirinhas antes que a navegação fosse comprometida. Ao todo, foram atendidas 55 comunidades ao longo do rio Negro, com distribuição de mais de 6 mil cestas básicas, água potável, kits de higiene e equipamentos para captação e tratamento de água.

A experiência demonstrou que ações preventivas podem reduzir significativamente os impactos sociais e econômicos provocados pela estiagem, servindo de base para o planejamento atual.

Plano de contingência amplia integração

Ainda em julho, a administração municipal pretende lançar o Plano de Contingência 2026-2028, elaborado em conjunto por diferentes secretarias. O documento prevê monitoramento contínuo do rio Negro por sensores em tempo real, integração de dados do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) e do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), além da emissão de alertas por SMS, rádio, televisão e redes sociais.

O plano também contará com o apoio do Núcleo de Monitoramento Atmosférico e Emissão de Alertas (Numadec), responsável pela análise de dados meteorológicos e ambientais para orientar decisões estratégicas e ampliar a capacidade de resposta da cidade diante de eventos extremos.

A preparação de Manaus ocorre em um momento de crescente preocupação nacional com os efeitos do El Niño. Especialistas apontam que medidas preventivas costumam ter custos muito menores do que os prejuízos provocados por secas severas, queimadas e eventos climáticos extremos. Ao investir em tecnologia, monitoramento e planejamento antecipado, a capital amazonense busca reduzir riscos e proteger a população diante de um cenário climático que pode ser um dos mais desafiadores dos últimos anos.

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