MedToken quer levar tokens de plantões médicos ao investidor de varejo

A MedToken prepara para este bimestre sua primeira oferta pública de tokens lastreados em plantões médicos. A startup, fundada em 2024 por Lídia e Vitor Tatekawa, já tokeniza recebíveis de profissionais de saúde desde 2025, mas até agora os ativos eram negociados apenas em ofertas privadas no Mercado Bitcoin.

A empresa atua em uma dor comum no setor de saúde: a demora para médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos receberem por plantões já realizados. Em muitos casos, o pagamento pode levar de 30 a 90 dias.

Essa solução da MedToken antecipa esse valor ao profissional, com deságio, e transforma o crédito a receber em um token registrado em blockchain. O investidor compra o ativo e recebe o valor corrigido no vencimento, quando a unidade de saúde liquida a dívida original.

Como funciona a operação

O modelo da MedToken é baseado na cessão digitalizada de créditos. Depois que o plantão é validado, a startup antecipa o pagamento ao profissional de saúde e estrutura o recebível como um ativo digital.

Segundo a empresa, 62% das antecipações são pagas no mesmo dia do plantão. O restante é liquidado em até 48 horas.

A distribuição dos tokens é feita pelo Mercado Bitcoin. Até aqui, as operações foram conduzidas como ofertas privadas, com os ativos adquiridos pela tesouraria da securitizadora envolvida na estrutura.

A abertura ao investidor de varejo será o próximo passo. A MedToken afirma já ter capacidade técnica para fazer a listagem pública, mas quer ganhar mais volume operacional antes de ampliar o acesso ao produto.

Startup já tokenizou mais de 4 mil plantões

A MedToken reúne cerca de 4 mil profissionais de saúde cadastrados, com concentração em São Paulo e presença em outros estados.

Desde o início da operação, a startup afirma ter tokenizado mais de 4 mil plantões. Nos últimos 11 meses, o volume transacionado cresceu 73%.

A empresa atua em 40 hospitais e diz atender 96 unidades de saúde em projetos-piloto. Até o momento, afirma não ter registrado casos de inadimplência.

Toda a análise de crédito, validação dos plantões e monitoramento de risco é feita com agentes de inteligência artificial. O sistema avalia a consistência das informações antes da tokenização e acompanha a concentração de crédito por profissional e por instituição.

Entrada acontece pelas gestoras médicas

O acesso à plataforma não ocorre diretamente pelo profissional de saúde. A MedToken entra nas operações por meio das gestoras de equipes médicas, empresas contratadas por hospitais para administrar times assistenciais.

“Nossa cliente primária é a gestora. O médico entra como cliente final”, afirma Lídia Tatekawa.

A fundadora conhece o problema de dentro do setor. Médica com passagem pelo Hospital Sírio-Libanês, Imed Group e CEJAM, ela coordenava equipes assistenciais e acompanhava os atrasos no pagamento de plantões.

Segundo Lídia, o público que usa a solução é mais diverso do que a empresa imaginava no início. A base inclui desde recém-formados até profissionais com mais de 60 anos.

Captação seed está no radar

A MedToken opera em modelo bootstrap desde a fundação e diz ter alcançado superavit nos primeiros meses de operação. Agora, a startup prepara sua primeira rodada de investimento.

A expectativa é levantar uma rodada seed até o fim do ano, em valor não revelado. Os recursos devem ser usados para ampliar a base de gestoras e hospitais parceiros e acelerar a expansão geográfica.

As regiões Norte e Nordeste são tratadas como prioridade pela empresa, por concentrarem maior carência de infraestrutura e de soluções financeiras para profissionais de saúde.

“Podemos crescer de forma orgânica e levar anos para chegar onde queremos, ou receber um dinheiro externo e entrar em modo turbo”, afirma Lídia.

Blockchain além da antecipação

A visão da MedToken vai além da antecipação de recebíveis. A startup quer ampliar o uso de blockchain na gestão hospitalar, com aplicações em controle de estoque, rastreamento de insumos e redução de desperdícios.

Para Lídia, a tecnologia pode fortalecer a governança em hospitais e melhorar processos que impactam indiretamente a assistência ao paciente.

No curto prazo, porém, o foco está na abertura da oferta pública de tokens e no aumento do volume de operações. A empresa afirma ser a única plataforma que combina antecipação de recebíveis médicos com tokenização.

Regulação e risco de crédito

A MedToken se posiciona como uma empresa de tecnologia, não como instituição financeira ou prestadora de serviços de ativos virtuais. A oferta dos tokens é feita pelo Mercado Bitcoin, enquanto a startup atua na estruturação e tokenização dos créditos. Uma securitizadora participa da operação nos bastidores.

Como em outros produtos de renda fixa, o investidor fica sujeito ao risco de crédito do devedor. Segundo a MedToken, a responsabilidade de cobrança e monitoramento é da empresa em conjunto com uma instituição financeira parceira.

A oferta pública será um teste importante para a startup. Se ganhar tração, a MedToken poderá ampliar o acesso de profissionais de saúde à antecipação de recebíveis e, ao mesmo tempo, abrir uma nova classe de ativos tokenizados no mercado brasileiro.

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