A Natura deu mais um passo concreto em sua agenda climática. Na segunda-feira (9), a companhia inaugurou uma unidade de abastecimento de biometano no complexo industrial de Cajamar, no interior de São Paulo — o maior da América Latina em operação. A iniciativa, desenvolvida em parceria com a Ultragaz, marca a primeira vez no Brasil em que produção industrial e logística são descarbonizadas de forma simultânea em uma mesma operação.
Com a mudança, o biometano passa a abastecer 45% dos processos industriais da fábrica e 100% da frota logística que circula na Grande São Paulo. Na prática, isso representa uma redução de até 90% nas emissões dos 28 caminhões que operam na unidade, hoje conduzidos em parceria com a Coopercarga e a ReiterLog. Para Angela Pinhati, diretora de Sustentabilidade da Natura, trata-se de “um sonho que vira realidade” — e de um passo essencial rumo à meta de zerar as emissões das operações até 2030 e se tornar um negócio 100% regenerativo até 2050.
O combustível utilizado vem do aterro sanitário de Caieiras, também o maior da América Latina, que processa 3 mil toneladas de resíduos por dia. A Ultragaz capta e purifica o biogás gerado pela decomposição orgânica no local, transformando o que seria simplesmente lixo em energia limpa. Parte dos resíduos descartados pela própria Natura no aterro retorna à empresa na forma de combustível, fechando um ciclo que a companhia define como modelo de economia circular. O vice-presidente de Operações da Ultragaz, Guilherme Simão Darezzo, garante que a molécula é 100% rastreável e renovável — e que a solução está madura o suficiente para operar em escala.
O projeto prevê o consumo de aproximadamente 3,5 milhões de metros cúbicos de biometano por ano em 2026, volume equivalente ao consumo anual de 30 mil residências. Com isso, a Natura estima evitar a emissão de até 1,3 mil toneladas de CO₂ por ano — o equivalente a retirar 280 carros de passeio das ruas todos os dias.
Os ganhos não se limitam ao meio ambiente. Denise Leal, diretora de Operações da Natura, aponta que o biometano gerou um incremento de mais de 15% de eficiência nas caldeiras industriais, além de maior previsibilidade e estabilidade nos custos operacionais. Na logística, a tecnologia da Ultragaz permite que o abastecimento dos caminhões seja feito em cerca de 10 minutos — tempo significativamente inferior aos 40 a 50 minutos registrados em postos convencionais, o que também reduz deslocamentos e, consequentemente, a pegada de carbono da operação.
O contexto geral ainda é desafiador: dos 2,4 milhões de caminhões que circulam no Brasil, menos de 0,1% roda a biogás. Mas o projeto de Cajamar chega em um momento estratégico para a Natura. O escopo 3 — as emissões geradas fora dos muros da empresa, em fornecedores, embalagens e logística — representa mais de 96% de todo o impacto climático da companhia, e a meta até o fim desta década é reduzir 42% dessas emissões.
São Paulo lidera a produção nacional de biometano, com 9 das 18 plantas autorizadas em operação no país, sendo quatro delas abastecidas por resíduos de aterros sanitários — como é o caso de Caieiras. Outras seis plantas paulistas estão em processo de autorização e, quando entrarem em funcionamento, poderão adicionar 203 mil m³ por dia à capacidade instalada do estado.
