O que você faria se caísse literalmente de paraquedas no cargo de Diretor Técnico de uma Seguradora sem nunca ter sequer lido uma apólice?
Bom, para quem não é familiar com o mundo de seguros, compete ao Diretor Técnico a responsabilidade pela formulação dos produtos, bem como estabelecer os preços a serem cobrados e os critérios para aceitação do risco em questão além de cuidar dos sinistros quando, da sua ocorrência.
A gama de produtos de uma seguradora vai de um simples seguro de residência até seguros de aeronaves, transportes, responsabilidade civil de executivos, etc., em suma, tudo aquilo que é entendido como um risco segurável, ou seja, evento cuja ocorrência é possível e é aleatória, existe a possibilidade mas não é 100% .
Lembro ter me sentido como um “E.T.” diante das novas responsabilidades a mim atribuídas. Não tinha claro se deveria chorar ou celebrar. Instintivamente temos duas reações possíveis: lutar ou fugir diante dos desafios. Optei por lutar.
Escolha feita, tinha de decidir se iria comer o elefante de uma só vez ou em pedaços. A lógica me orientou a escolher a segunda opção.
Dada a gama de conhecimento e detalhes envolvendo as operações de seguro, logo percebi que mesmo que me dedicasse “full time” a estudar toda matéria, não seria melhor técnico que os membros da minha equipe.
Pela primeira vez, iria liderar uma equipe onde quem menos entendia do tema era eu. Logo de cara assumi a minha ignorância, sem rodeios, numa atitude humilde de quem reconhece sua limitação, mas com disposição para superá-la.
Decidi que deveria começar, no mínimo, conhecendo o suficiente para formular perguntas. Não tinha tempo para querer dar as respostas.
Saber fazer perguntas, era do que eu precisava.
Mas, para quem perguntar? Fui praticando e filtrando e, com o tempo, percebi quem era quem. Quem respondia de forma burocrática, quem se arriscava e respondia além do que foi perguntado, completando a resposta com outros elementos e situações possíveis. Tudo isso, independentemente do nível hierárquico de cada de cada um.
Havia pessoas que, nas suas respostas, percebia o desconforto de ter um chefe que não entendia do tema, respondendo com má vontade. Por outro lado, outros percebiam nessa situação uma oportunidade de mostrar o seu valor e contribuir para minha formação.
Diante de mesmos fatos, pessoas têm visões e atitudes distintas. É a história do copo meio cheio, meio vazio, que sempre se repete.
Já tinha duas pernas do banquinho, mas ainda faltava uma terceira perna para firmar meu modelo de liderança : eu formulava as perguntas, escolhia para quem perguntar, mas a responsabilidade pelas decisões era minha.
Jamais terceirizei essa responsabilidade. Tive clarividência de perceber que se não assumisse a responsabilidade pelos erros e as transferisse para a equipe, eles ficariam desestimulados a darem a sua opinião, caso tivessem que arcar com o ônus.
Os acertos eram compartilhados entre todos, mas os erros eram da minha responsabilidade.
Se você tem liberdade de escolher para quem perguntar, e com base na resposta dessa pessoa você decide e se eventualmente der errado, a quem se deve atribuir a responsabilidade? A quem teve o poder de escolher para quem perguntar ou para pessoa que eventualmente deu uma resposta inexata.?
É uma questão de escolha que no médio e longo prazo serão fundamentais para a construção de uma relação de confiança, além de empoderar a equipe na busca contínua de melhores soluções.
Tudo isso aconteceu no final do século passado. Hoje essa situação é cada vez mais comum. Muitos dos colaboradores sabem mais do que liderança em diversos temas, o que implica na necessidade de rever o papel da liderança tradicional.
Mais do que antes, o que se espera hoje das lideranças é que não sejam o depositário do saber, mas alguém que possa ajudar o time a construir soluções através da sinergia, onde a somatória resultante do mix dos conhecimentos é maior que a soma individual de cada um.
Não se preocupe em perder espaço por não assumir pessoalmente os méritos. A esse respeito, vale lembrar uma lição que meu pai deixou: “Se alguém elogiar o seu filho, não diga que foi você que o educou. Qualquer pessoa de bom senso saberá que ele não se educou sozinho, mas sim, que foram os pais”.
