Uma expressão bastante recorrente nos momentos em que o “status quo” passa por algum tipo de questionamento é: “aqui é diferente” ou a sua variante “na nossa empresa a situação é outra”.
O que chama a atenção na maioria dos casos, é que essas respostas são automáticas, como se as análises viessem por “default”, sem qualquer exame mais profundo da proposta, rejeitando-a de modo mecânico.
Ao longo de seu trabalho, Freud desenvolveu um conceito que ficou conhecido como “mecanismos de defesa”. São processos psicológicos automáticos e inconscientes na sua maioria, que desenvolvemos para lidar com ansiedades provocadas por conflitos internos ou ameaças externas, entre outros, com os quais o consciente não sabe como lidar.
Um desses mecanismos muito frequentes, seja na vida pessoal ou no mundo corporativo, é o da negação. Diante de um questionamento ou proposta de mudança, instintivamente a resposta mais comum é a da negação, respondendo que “aqui é diferente” ou “o meu caso é diferente”, colocando-se como um caso único que difere de todos os demais.
O que se procura ocultar é o medo. Por trás dessa negação se esconde a insegurança de que suas fragilidades sejam expostas, receio das implicações que as mudanças podem ocasionar, daí a resistência em analisar e aceitar o novo.
Mas a negação não vem sozinha. Ela vem acompanhada, em geral, por outros mecanismos de defesa, como a racionalização e a intelectualização.
A racionalização, como mecanismo de defesa, é semelhante ao viés de confirmação exposto por Daniel Kahneman, como uma busca enviesada por argumentos lógicos que sustentem a sua afirmação inicial.
A intelectualização trabalha em apresentar o conflito em termos teóricos, com discursos do tipo: “pessoalmente, não tenho nada contra, são os dados que me mostram uma outra situação”. A pessoa procura mascarar sua real posição atribuindo-a a fatos, procurando tornar seu posicionamento impessoal.
Os riscos inerentes ao processo de negação, ainda mais nos dias de hoje com tantas mudanças frenéticas, são fáceis de imaginar. É o que costumamos chamar de “enterrar a cabeça na areia”.
A resistência, além da perda de tempo, nunca é totalmente eliminada. Uma vez aparentemente superadas, as análises e discussões serão permeadas por uma tentativa inconsciente, ou não, de fazer prevalecer a sua posição inicial.
Uma outra situação que provoca desgastes e perda de tempo é a de lidarmos com pessoas arrogantes e soberbas. Trata-se do mecanismo de defesa denominada “formação reativa”. Com o intuito de ocultar um sentimento de inferioridade ou insegurança, a pessoa, inconscientemente, projeta uma imagem diametralmente oposta à sua real natureza, vestindo uma máscara de superioridade para impedir que outros percebam a sua fragilidade. É a busca por uma superioridade compensatória e quanto mais inflado fica o seu ego, mais sensível fica a qualquer crítica, reagindo com agressividade e ironia.
Alguns sinais exteriores ajudam a identificar um soberbo: ele necessita de um palco, validação permanente diferentemente de uma pessoa verdadeiramente confiante que não a requer de modo constante, pois tem ciência do seu valor, independentemente dos outros.
São extremamente sensíveis a críticas, encarando-as como um ataque à sua auto imagem construída de perfeição. A ostentação dessa máscara o impede de pedir ajuda, encarando-a como um sinal de fraqueza ou derrota.
Todos esses artifícios têm por objetivo ocultar aquilo que são as verdadeiras causas, o medo e a insegurança com os quais o seu consciente não consegue lidar, e inconscientemente, busca refúgio nos mecanismos de defesa para preservar a sua auto imagem construída.
A busca por auto conhecimento, através de ajuda qualificada de um profissional, o ajudará a entender em quais armadilhas estamos presos e como podemos proceder. Mas quanto a lidar com o outro que vive preso a essas armaduras, saiba que o problema não é você, é ele. Não se culpe e muito menos, se sinta responsável, pois você só consegue ajudar quem quer ser ajudado.