Para eliminar a incerteza provocada pela ausência de uma explicação, o cérebro cria ilusões e/ou aceita explicações que preencham esse vácuo e devolvam o conforto que a certeza proporciona, sem se preocupar em verificar sua veracidade.
Hoje, a ignorância já não é mais consequência da falta de informação, mas do seu excesso.
Diante da dificuldade de separar o joio do trigo, o charlatanismo da ciência, muitos aceitam informações sem questionamento, sob a alegação de que “estava na internet”, como se isso fosse um atestado de plena validade.
É comum divulgarem fatos correlacionados como se fossem relações de causa e efeito.
Explicando melhor, a correlação entre duas variáveis ocorre quando ambas se movem na mesma direção e na mesma proporção, sem que uma seja a causa da outra.
Um exemplo clássico dessa situação é a forte correlação entre o aumento do consumo de sorvetes e as queimaduras de sol. Esse exemplo trivial esconde uma variável que é a verdadeira causa: o calor do verão. Não é o consumo de sorvetes que provoca queimaduras de sol, ou vice-versa, mas a elevação da temperatura.
Em outras situações, existe apenas coincidência na evolução das variáveis. Ao longo do tempo, verificou-se uma relação quase perfeita entre o aumento do consumo de queijo e a quantidade de alunos matriculados em programas de doutorado. Coincidência pura. Não existe nenhuma relação de causa e efeito entre esses fenômenos, embora sejam altamente correlacionados.
Não são poucos os “milagreiros” que, ao descobrirem alguma correlação entre duas variáveis, a apresentam como uma verdade científica ou uma cura milagrosa. Exemplos disso são os anúncios que proclamam que milhares de pessoas usaram determinado método ou produto e obtiveram sucesso.
Quando a maioria procura soluções simples, rápidas e sem esforço, as chances de sucesso desses anúncios tornam-se enormes.
É preciso reconhecer que eles são muito mais atraentes do que as explicações científicas, até porque a ciência é lenta em seu desenvolvimento e, além disso, suas descobertas nem sempre são definitivas.
E, quando alguém afirma que não acredita na ciência porque ela também erra, demonstra total desconhecimento da natureza do conhecimento científico.
Diferentemente das religiões, a ciência não proclama verdades absolutas. Pelo contrário, é justamente o fato de uma teoria poder ser refutada que a caracteriza como ciência. O conhecimento não é estático; ele evolui, seja pela revisão do que se acreditava anteriormente, seja pela incorporação de novas descobertas. Fora do campo da fé, não existem verdades imutáveis.
Mas, entre a explicação fácil e direta que as correlações aparentam oferecer e o árduo caminho do conhecimento científico, o cérebro da maioria opta pela primeira.
Pensar e conviver com a incerteza consome muita energia; cansa. Mas a dura realidade é que o caminho fácil raramente nos conduz ao destino desejado.
Nesse ponto, surge outro problema: como definir objetivos de vida em uma sociedade de consumo?
A lógica implícita nesse modelo privilegia o ter em detrimento do ser. O ser passa a ser visto como consequência do ter. O status social é medido pelo que e pelo quanto se possui.
De maneira subliminar, procura-se estabelecer uma relação de causa e efeito entre riqueza material e felicidade, fazendo a engrenagem da sociedade de consumo girar cada vez mais rápido.
Dinheiro traz conforto, mas confundir conforto com felicidade é um grande equívoco.
Estudos mostram que a relação entre aumento de riqueza e bem-estar existe principalmente entre pessoas que conseguem sair da linha da pobreza. A partir do momento em que as necessidades básicas já estão satisfeitas, aumentos sucessivos de renda produzem ganhos cada vez menores na percepção de felicidade.
Temos, então, que riqueza e felicidade não estão diretamente correlacionadas e, muito menos, existe entre elas uma relação de causalidade.
Assumir nossas escolhas exige coragem para enfrentar as incertezas e, também, resiliência para nadar contra a corrente. Mas o esforço vale a pena.
Ser e ter não são incompatíveis; o importante é saber estabelecer a ordem correta das prioridades.
