Os preços internacionais do petróleo registram desvalorização de cerca de 1% nesta terça-feira (30), devolvendo integralmente os ganhos da sessão anterior e consolidando o fechamento do mês no terreno negativo. A movimentação reflete o forte compasso de espera dos investidores, que monitoram potenciais negociações de bastidores entre os Estados Unidos e o Irã em Doha, no Catar, sob a sombra de um frágil cessar-fogo provisório em uma guerra que já se estende por quatro meses.
Perto do final da madrugada, os contratos futuros do petróleo Brent para agosto (com vencimento hoje) recuavam 0,78%, cotados a US$ 72,58 por barril. O patamar situa o principal indicador global cerca de US$ 20 — ou 22% — abaixo do fechamento consolidado no mês passado. Na mesma linha, o petróleo West Texas Intermediate (WTI) norte-americano para agosto operava em queda de 0,57%, negociado a US$ 70,35 por barril, acumulando um tombo de quase US$ 17 (19%) em relação ao encerramento de 29 de maio. Com essa forte correção, ambas as referências já flertam com os níveis de preços praticados antes da eclosão do conflito no Oriente Médio.
O mercado financeiro tenta antecipar uma desescalada militar, embora os discursos oficiais das potências envolvidas sigam desencontrados. Especialistas iranianos e de Omã devem iniciar nos próximos dias tratativas para redefinir as rotas de navegação no Estreito de Ormuz — canal por onde passa um quinto do consumo mundial de petróleo. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, sinalizou que o país tentará barrar embarcações fora dos novos corredores oficiais, enquanto o porta-voz da pasta negou qualquer reunião direta com diplomatas americanos no curto prazo.
A névoa diplomática foi reforçada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que comentou brevemente sobre a possibilidade de um encontro bilateral na capital catari: “A reunião em Doha talvez seja importante, talvez não. Vamos descobrir”, declarou a jornalistas no Salão Oval.
“Os investidores estão precificando a expectativa de um resultado positivo das negociações em Doha, embora uma normalização efetiva do fluxo pelo Estreito de Ormuz ainda não seja visível. O mercado está cautelosamente otimista, mas mantém proteção até sinais concretos”, explicou Tim Waterer, analista-chefe de mercado da KCM Trade.
A volatilidade expõe a fragilidade da trégua firmada em 17 de junho para interromper os combates. O bloqueio parcial dos fluxos no Estreito tornou-se um severo teste político para o governo de Donald Trump, que enfrenta pressões inflacionárias às vésperas das eleições legislativas norte-americanas de novembro.
Além das variáveis geopolíticas, o preço do barril encontra barreiras para se recuperar devido a fatores estruturais de oferta e demanda global. Dados do setor de transporte marítimo revelam que, apesar de novos ataques isolados a navios e de choques pontuais entre as forças dos EUA e do Irã, os produtores do Oriente Médio mantiveram os embarques de óleo bruto e Gás Natural Liquefeito (GNL). O tráfego na última semana atingiu o nível mais alto desde o início das hostilidades, no fim de fevereiro, elevando a oferta disponível.
Do lado do consumo, as mesas de commodities evitam adotar posições compradas devido à falta de tração na atividade econômica da China. “Estamos aguardando mais evidências de um aumento nas compras chinesas, mas ainda não podemos apostar em um retorno significativo ao mercado por parte do maior importador mundial”, ponderou Neil Crosby, chefe de pesquisa da Sparta Commodities.
