O PicPay começou 2026 com um resultado acima das próprias projeções. A companhia registrou lucro líquido ajustado de R$ 169 milhões no primeiro trimestre, alta de 92% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita líquida chegou a R$ 3,5 bilhões, avanço de 70% na comparação anual.
Os números mostram uma virada relevante para um dos maiores bancos digitais do país. Depois de anos em que fintechs foram cobradas por crescimento a qualquer custo, o PicPay tenta sustentar uma tese mais difícil: ampliar base, crédito e serviços sem abrir mão de rentabilidade.
O desempenho veio da combinação entre maior uso do aplicativo, crescimento da carteira de crédito, diversificação de receitas e ganho de eficiência operacional. A empresa também tem apostado em produtos com garantia, contas PJ, Ads e inteligência artificial para aumentar monetização sem depender apenas de linhas de maior risco.
“Ultrapassamos o guidance nos principais indicadores, refletindo a execução consistente da nossa estratégia de crescimento com rentabilidade, baseada em escala, disciplina financeira e aprofundamento do relacionamento com os clientes. Estamos confiantes em um segundo trimestre positivo”, afirma Eduardo Chedid, CEO do PicPay.
O que explica a alta de 70% na receita
A receita líquida de R$ 3,5 bilhões foi puxada por uma base maior e mais engajada. O PicPay encerrou o trimestre com 68,6 milhões de usuários, crescimento de 10,5% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
As contas ativas somaram 44,3 milhões, alta de 10% no período. Na comparação com o trimestre anterior, a companhia adicionou 1,5 milhão de clientes ativos.
Mais importante do que crescer em número de usuários foi aumentar a receita gerada por cliente. A receita média por cliente ativo, conhecida como ARPAC, chegou a R$ 80,70, alta de 55% em um ano. O indicador ficou quase quatro vezes acima do custo de servir, de R$ 20,30.
Quanto mais serviços o cliente usa dentro do aplicativo, maior tende a ser a monetização da base. A companhia tenta transformar a conta digital em uma plataforma de uso diário, com pagamentos, cartão, crédito, Pix, seguros, compras, delivery, viagens e serviços para empresas.
“A profundidade do relacionamento com nossos mais de 68 milhões de usuários, aliada à expansão contínua de serviços do dia a dia, sustenta a escalabilidade do modelo e uma monetização cada vez mais eficiente”, afirma André Cazotto, executivo de Estratégia, M&A e Relações com Investidores do PicPay.
Lucro bruto passa de R$ 1 bilhão
O avanço também apareceu na linha de lucro bruto, que chegou a R$ 1,1 bilhão, crescimento de 44% na comparação anual. A margem financeira, conhecida como NII, atingiu R$ 1,7 bilhão, alta de 76%. Segundo a companhia, o resultado reflete ganhos de escala e maior eficiência na monetização da base de clientes.
Na prática, o PicPay está tentando provar que consegue crescer em várias frentes ao mesmo tempo. A empresa amplia crédito, mas busca concentrar parte maior da carteira em produtos com garantia. Também aumenta receitas sem risco ou de baixo risco, como carteira digital, adquirência, float, seguros e publicidade.
Esse equilíbrio é importante em um setor no qual bancos digitais ganharam milhões de clientes, mas passaram a ser avaliados com mais rigor por lucro, qualidade de crédito e controle da inadimplência.
Crédito cresce com mais garantia na carteira
A carteira de crédito do PicPay encerrou o trimestre em R$ 28 bilhões, crescimento de 116% em relação ao mesmo período de 2025.
A expansão foi sustentada por uma estratégia mais concentrada em produtos com garantia. Hoje, 54% da carteira é formada por linhas como consignado público e privado, antecipação do FGTS e cartões com limite garantido. Mesmo com a alta no volume de crédito, o custo de risco permaneceu em 3,7% nos últimos três trimestres, segundo a companhia.
O consignado privado foi um dos destaques do período. O PicPay registra cerca de R$ 700 milhões por mês em novas concessões da modalidade e já tem aproximadamente 5% de participação nas contratações do setor. Apenas no primeiro trimestre, foram cerca de R$ 2 bilhões contratados.
A aposta em crédito com garantia ajuda a reduzir volatilidade e permite crescer com mais previsibilidade. Em um mercado de juros altos e inadimplência ainda sensível, esse tipo de carteira costuma ser visto como mais defensivo do que crédito pessoal sem garantia.
Receitas de menor risco ganham espaço
A diversificação de receitas avançou no trimestre. Produtos sem risco ou de baixo risco passaram a responder por 69% das receitas do PicPay.
As receitas de crédito com garantia cresceram 272% na comparação anual. Já as receitas não relacionadas a crédito, como carteira digital, adquirência, float e seguros, avançaram 47% e chegaram a R$ 1,6 bilhão.
Esse movimento reduz a dependência de uma única frente de negócio e ajuda a companhia a capturar valor em diferentes momentos da jornada do cliente. O usuário pode começar pelo Pix ou pela carteira digital, avançar para cartão, contratar crédito, usar serviços de compra ou aderir a produtos de seguro.
Para bancos digitais, essa profundidade de relacionamento é decisiva. O desafio não é apenas abrir contas, mas fazer com que elas sejam usadas de forma recorrente.digital movimenta R$ 134 bilhões
A carteira digital segue como uma das principais portas de entrada para o ecossistema do PicPay. No primeiro trimestre, o volume total de pagamentos, o TPV, chegou a R$ 134 bilhões, alta de 24% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O crescimento foi impulsionado principalmente pelo maior uso do PicPay Card.
Contas PJ aceleram e abrem nova frente
O PicPay também avançou em produtos para empresas. A abertura de contas PJ acelerou ao longo do trimestre, saindo de cerca de 60 mil para 80 mil novas contas por mês.
Além disso, a companhia originou R$ 693 milhões em soluções voltadas a empresas, com foco em antecipação de recebíveis e melhora do fluxo de caixa.
A frente PJ é estratégica porque amplia o uso do PicPay além da pessoa física. Para empreendedores, a companhia tenta vender soluções de conta, recebimento, crédito, gestão financeira e relacionamento com clientes.
Esse mercado é disputado por bancos tradicionais, adquirentes, fintechs e plataformas de gestão. A vantagem competitiva dependerá da capacidade de oferecer produtos simples, taxas competitivas e integração com a rotina dos negócios.
Ads, compras e serviços ampliam monetização
Outra frente em expansão é a vertical de Audiências e Ecossistema, que reúne ofertas de viagens, delivery, entretenimento e compras dentro do app.
No primeiro trimestre, o número de usuários que utilizaram produtos dessa vertical cresceu 11,5% na comparação anual.
A unidade de Ads registrou alta de 95% na receita em relação ao mesmo período de 2025. A área aproveita a base de usuários do PicPay para criar novas oportunidades de publicidade, ofertas segmentadas e campanhas dentro do aplicativo.
Com lucro ajustado de R$ 169 milhões, receita de R$ 3,5 bilhões e base de 68,6 milhões de usuários, o PicPay entra em 2026 tentando se consolidar como uma plataforma financeira mais completa, e não apenas como uma carteira digital popular.
O próximo teste será sustentar a rentabilidade nos trimestres seguintes, enquanto amplia crédito, serviços para empresas, Ads e uso de IA em uma operação cada vez maior.








