O plano aprovado na 30ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP 30) reconheceu que os impactos das mudanças climáticas não são neutros e atingem de forma desproporcional mulheres e meninas, em especial mulheres indígenas, negras e afrodescendentes, ribeirinhas, quilombolas, de comunidades locais, com deficiência, migrantes e agricultoras de pequena escala.
Vamos aos números…
Segundo a UNESCO, cerca de 80% das pessoas deslocadas pelas mudanças climáticas e desastres naturais são mulheres e meninas. Elas também têm 14 vezes mais chances de morrer após um desastre natural. Mas elas, que estão entre as mais afetadas pela crise climática, continuam sendo minorias nas mesas para decidir as soluções. Essa lógica de exclusão se repetiu até na COP 30: embora mulheres negras representem 28% da população brasileira, apenas Jurema Werneck (diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil) foi nomeada pela presidência da Conferência entre os 22 enviados nacionais. (Instituto Humanitas Unisinos, 11/11/2025).
A importância do Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP), como um roteiro para ação nos próximos 9 anos (2026-2034) é importante, pois a decisão introduz elementos importantes sobre saúde, violência contra mulheres e meninas e mecanismos de proteção para defensoras ambientais, trabalho de cuidado, trabalho decente e empregos de qualidade, transições socialmente justas, além do reconhecimento de fatores interseccionais que moldam suas realidades, abrangendo mulheres com deficiências, mulheres indígenas, mulheres de comunidades rurais e remotas, mulheres e meninas afrodescendentes. (ONU Mulheres Brasil, 22/11/2025).
“Só há justiça climática se houver igualdade de gênero” Ana Carolina Querino (representante interina da ONU Mulheres no Brasil)
No Brasil, as mulheres são maioria na catação de materiais recicláveis e lideram a maior parte das cooperativas, mas ainda sofrem nas ruas com racismo e violência de gênero. Além disso, precisam conciliar o trabalho com os cuidados com a casa, filhos e netos. Uma grande preocupação das catadoras é com o aumento do calor e das enchentes causadas pelas mudanças climáticas, que dificultam ainda mais as condições de trabalho, especialmente nas periferias. Esses profissionais são “agentes de transformação”, principalmente se também trabalharem com a reciclagem do lixo orgânico, gerando economia para o município, ganho para a categoria de catadores, além de capturar toneladas e toneladas de gases do efeito estufa, gerando aí uma mitigação muito grande na captura de gases no meio ambiente. (ONU News, 21/11/2025)
Outro exemplo é da jovem portuguesa, pioneira no litígio climático. Ela é fundadora e presidente da organização Último Recurso, que iniciou a primeira ação de litigância climática da história de Portugal e hoje lidera mais de 170 casos. Para ela, ações de mitigação e adaptação devem reconhecer que os desastres climáticos têm um impacto maior nas mulheres, pois aumentam o risco de violência de gênero, deslocamento forçado e sobrecarga no trabalho de cuidado. (ONU News, 21/11/2025).
Principalmente em áreas rurais, mulheres e meninas são frequentemente responsáveis por garantir alimentos, água e lenha para suas famílias. Durante períodos de seca e chuvas irregulares, as mulheres rurais trabalham mais, caminham mais e dedicam mais tempo à obtenção de renda e recursos para suas famílias. Isso também podem expô-las a maiores riscos de violência de gênero, uma vez que as mudanças climáticas exacerbam conflitos, desigualdades e vulnerabilidades já existentes. Desastres agudos também podem interromper serviços essenciais, incluindo cuidados de saúde sexual e reprodutiva, agravando os impactos negativos para mulheres e meninas. (Nações Unidas, [s.d.]).
Conclusões
As mulheres são guardiãs do meio ambiente e as mulheres indígenas têm estado na vanguarda da conservação ambiental, trazendo consigo conhecimentos e práticas ancestrais inestimáveis que fortalecem a resiliência em um clima em constante mudança, por exemplo, preservando a biodiversidade.
As mulheres são a espinha dorsal da resiliência dado que realizam, pelo menos duas vezes mais trabalho doméstico e de cuidados não remunerado do que homens. Costumam ser as primeiras a responder desastres, resgatando crianças, idosos, pessoas com deficiência e outros membros da comunidade, além de informar as autoridades locais e equipes de emergência. Sem contar que, após um desastre, provavelmente serão as responsáveis por cuidar de doentes e feridos.
No entanto, embora sejam afetadas de maneira desproporcional e sejam líderes na recuperação pós-desastre, elas são amplamente excluídas da formulação de políticas, estratégias e programas para lidar com o risco de desastres e promover a resiliência climática.
Em sociedades mais ricas, as mulheres são responsáveis por 70 a 80% das decisões de compra dos consumidores, são mais propensas a reciclar, minimizar o desperdício, comprar alimentos orgânicos e produtos com selos ecológicos, além de economizar água e energia em casa.
Chegou a hora de investir nas mulheres como uma força poderosa para a mudança, liderando o caminho para um futuro mais sustentável. Elas são líderes naturais na adaptação e resiliência comunitária, promovem a sustentabilidade no lar e são agendes de mudança por meio de práticas diárias e ativismo, exigindo políticas públicas inclusivas para ampliar seu impacto e garantir uma transição justa.
Referências Bibliográficas:
– Instituto Humanitas Unisinos. De Marraquexe a Belém: a trajetória da pauta de gênero nas COPs. 11 de novembro de 2025. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/659802-de-marraquexe-a-belem-a-trajetoria-da-pauta-de-genero-nas-cops#:~:text=Durante%20a%202%C2%AA%20Plen%C3%A1ria%20do,muda%20o%20tom%20da%20confer%C3%AAncia.%E2%80%9D
– Nações Unidas. Ação Climática [s.d.]. Disponível em: https://www.un.org/en/climatechange/science/climate-issues/women
– ONU Mulheres Brasil. ONU Mulheres celebra a aprovação do Plano de Ação de Gênero de Belém (GAP) e reforça o chamado por sua implementação efetiva. 22 de novembro de 2025. Disponível em: https://www.onumulheres.org.br/noticias/onu-mulheres-celebra-aprovacao-plano-de-acao-de-genero-de-belem-gap-e-reforca-o-chamado-por-sua-implementacao-efetiva/#:~:text=Sobre%20o%20Plano%20de%20A%C3%A7%C3%A3o,significativa%20e%20igualit%C3%A1ria%20das%20mulheres.
– ONU News. Perspectiva Global Reportagens Humanas. Nações Unidas: 21 de novembro de 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/11/1851599#:~:text=Por%20Felipe%20de%20Carvalho%2C%20de%20Bel%C3%A9m&text=Catadora%20fala%20do%20papel%20feminino,papel%20de%20lideran%C3%A7a%20para%20elas.
