Raízen apresenta proposta de reestruturação a detentores de debêntures e CRAs

Raízen vende R$ 1,045 bilhão em ativos de cana-de-açúcar da Usina Santa Elisa para reduzir alavancagem

Raízen/Divulgação

A Raízen (RAIZ4) divulgou a minuta do seu plano de recuperação extrajudicial (RE) que será submetido à deliberação nas assembleias de credores agendadas para esta quarta-feira (3). O plano abrange titulares de debêntures emitidas pela companhia e pela Raízen Energia, além de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) lastreados em direitos creditórios da subsidiária. A proposta estrutural visa estancar a crise financeira da joint venture entre a Cosan (CSAN3) e a Shell, contemplando injeções de capital, reestruturação de passivos, mudanças profundas na governança corporativa e uma reorganização societária.

Os termos gerais do plano preveem um aporte de R$ 3,5 bilhões a ser realizado pela Shell, com as ações precificadas a R$ 0,25 no fechamento da operação. O desenho financeiro estabelece ainda a possibilidade de um aporte adicional de R$ 500 milhões por meio de um veículo de investimento controlado pela Aguassanta Investimentos, holding familiar de Rubens Ometto (controlador da Cosan). Os recursos novos são considerados vitais para recompor o capital de giro e garantir a continuidade operacional do grupo.

Para equalizar o passivo sujeito ao procedimento, a administração da Raízen desenhou três modalidades de adesão na minuta do plano, divididas conforme o perfil e o tamanho do credor:

O plano prevê uma cisão completa dos negócios da holding, separando formalmente os ativos operacionais a partir de 2027. A estrutura será dividida entre a Raízen Energia, que concentrará as atividades agroindustriais de produção de açúcar e etanol, e a Raízen Combustíveis, responsável pelas redes de distribuição e postos de serviços.

A governança corporativa também será reformulada para transferir o controle político temporário aos financiadores. O conselho de administração da Raízen passará a ser composto por sete membros: quatro assentos (incluindo a presidência do colegiado) serão indicados pelos credores apoiadores do plano, enquanto os acionistas contribuintes terão direito a nomear os três membros restantes. Como parte do acordo de propriedade intelectual, a Shell preservará o direito de manter ao menos um representante no conselho durante a vigência do contrato de licenciamento da marca nos postos de combustíveis.

A Raízen abriu seu capital na B3 em agosto de 2021, movimentando um dos maiores IPOs daquele ciclo, com a empresa avaliada em R$ 76 bilhões. A tese de investimento sustentava-se no pioneirismo dos combustíveis verdes e na escalabilidade do etanol de segunda geração (E2G). No entanto, o projeto enfrentou obstáculos severos no mercado internacional, incluindo o arrefecimento global dos fundos com mandato estrito de investimentos sustentáveis (ESG), a concorrência comercial do etanol de milho (uma alternativa mais barata) e ciclos de preços deprimidos para as commodities agrícolas.

Nos anos seguintes, a companhia engajou-se em um plano agressivo de aquisições que elevou o endividamento. Com a deterioração dos resultados operacionais, as ações RAIZ4 desvalorizaram-se até o patamar de penny stock. No final de 2024, a joint venture tentou reagir trocando seu comando executivo com a nomeação de Nelson Gomes como CEO, o qual liderou um plano de desinvestimentos que alienou ativos e usinas, levantando cerca de US$ 5 bilhões até fevereiro de 2026.

O ponto de inflexão ocorreu no terceiro trimestre da safra 2025/2026, quando a Raízen reportou um prejuízo líquido de R$ 15,65 bilhões. No mesmo período, a dívida líquida saltou de R$ 38,6 bilhões para R$ 55,3 bilhões, elevando o indicador de alavancagem financeira (Dívida Líquida/Ebitda) de 3,0 vezes para 5,3 vezes.

Diante do estresse financeiro e após semanas de negociações infrutíferas de socorro privado com seus controladores, a Raízen protocolou o pedido de recuperação extrajudicial em 11 de março de 2026, obtendo uma liminar de moratória por 90 dias para suspender o pagamento de obrigações que somam R$ 65 bilhões. O pedido resultou na exclusão imediata dos papéis da companhia do Ibovespa e demais índices teóricos da B3.

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