Setor florestal e governo unem forças em Minas para reforçar prevenção e resposta a incêndios

Com a chegada do período de estiagem, Minas Gerais intensifica uma articulação entre setores do agro, governo e órgãos de resposta a emergências para reduzir o impacto dos incêndios florestais. A iniciativa surge após um cenário crítico registrado no último ciclo seco, quando o estado contabilizou cerca de 305 mil hectares atingidos pelo fogo, com prejuízos estimados em R$ 1,2 bilhão, afetando áreas produtivas, vegetação nativa e operações industriais.

A resposta para a temporada atual se baseia em um modelo integrado de prevenção, preparo e combate, que envolve o fortalecimento de protocolos conjuntos, investimentos privados em estrutura operacional, capacitação de brigadas e a formalização de novos acordos de cooperação técnica.

A estratégia é liderada pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, em articulação com entidades do setor produtivo e instituições públicas, reforçando a governança estadual voltada à prevenção e ao combate aos incêndios florestais. Nesse contexto, destaca-se a atuação da Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF), que passa a integrar novos instrumentos de coordenação, como o Programa Minas Contra o Fogo — responsável pela operacionalização das ações previstas no plano. Também merece destaque o fortalecimento do Plano de Auxílio Mútuo Florestal (PAM Florestal), iniciativa que promove a integração das empresas do setor em ações coordenadas de prevenção, monitoramento e resposta rápida às ocorrências, ampliando a capacidade de atuação conjunta diante dos desafios da temporada de incêndios.

Minas Gerais concentra a maior área de florestas plantadas do país, com aproximadamente 2,3 milhões de hectares, o equivalente a cerca de 24% da base florestal brasileira, distribuídos em 803 municípios, o que representa presença em cerca de 94% do território mineiro.

Além da relevância econômica, o setor mantém mais de 1,3 milhão de hectares de vegetação nativa conservada, área comparável à ocupada pela cultura do café no estado. Esse cenário amplia a vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a responsabilidade do setor produtivo na prevenção de incêndios durante o período seco.

Segundo a presidente executiva da AMIF, Adriana Maugeri, o desafio atual exige coordenação contínua entre diferentes atores. “Estamos diante de um cenário em que a prevenção precisa ser estruturada de forma coletiva. O setor florestal investe de maneira permanente em brigadas, monitoramento e infraestrutura, mas a efetividade da resposta depende da integração com o poder público e com os sistemas estaduais de combate”, afirma.

Um dos pilares da estratégia para 2026 é a assinatura de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, que formaliza a atuação conjunta entre brigadas privadas e forças estaduais. O acordo prevê compartilhamento de recursos operacionais, apoio logístico em áreas críticas e atuação coordenada em ocorrências de maior complexidade, especialmente em regiões de interface entre áreas produtivas e vegetação nativa.

De acordo com a engenheira florestal, Laura Lima, coordenadora técnica da AMIF, o modelo busca reduzir o tempo de resposta em focos iniciais, considerado um dos fatores mais decisivos para evitar grandes incêndios. “O combate ao fogo florestal depende de velocidade de resposta. Em muitos casos, minutos fazem diferença entre um foco controlado e um incêndio de grandes proporções. A integração operacional é o ponto central dessa estratégia”, explica Laura, da área técnica da entidade.

O Plano de Auxílio Mútuo Florestal (PAM Florestal) surge como uma das principais inovações do setor, reunindo empresas para atuação colaborativa em situações de emergência. O modelo permite o compartilhamento de equipes, equipamentos, caminhões-pipa, sistemas de monitoramento e estruturas de apoio entre companhias do setor, ampliando a capacidade de resposta em regiões estratégicas do estado.

Além da resposta emergencial, o PAM também organiza ações preventivas conjuntas, como a construção de aceiros, limpeza de margens de rodovias, monitoramento por torres de observação e uso de sistemas tecnológicos para detecção de focos de calor em tempo real. As empresas florestais também ampliaram o uso de tecnologia para vigilância contínua, incluindo sensores, imagens de satélite e inteligência de dados aplicada à previsão de risco.

Segundo Adriana Maugeri, o investimento em prevenção tem se mostrado mais eficiente do que a atuação exclusivamente reativa. “A experiência dos últimos anos mostra que a maior parte dos grandes incêndios poderia ser evitada com detecção precoce e manejo preventivo. O investimento privado tem crescido justamente nessa direção, com tecnologia e estrutura dedicada à prevenção”, destaca.

O impacto econômico dos incêndios do ciclo anterior reforça a necessidade de articulação. Além dos R$ 1,2 bilhão em prejuízos diretos, o fogo atingiu áreas produtivas e gerou impactos operacionais em cadeias industriais ligadas à madeira, energia e celulose.

O episódio também evidenciou a complexidade do enfrentamento dos incêndios em Minas, que envolvem áreas de produção florestal, zonas de transição com vegetação nativa e regiões de difícil acesso.

O setor florestal mineiro mantém uma das estruturas privadas mais robustas do país em combate a incêndios, com brigadas próprias, caminhões equipados, sistemas de monitoramento e bases operacionais distribuídas pelo território.

Essas estruturas operam de forma complementar ao sistema público, especialmente em áreas remotas onde o acesso do poder público pode ser mais demorado. A integração dessas capacidades privadas com o sistema estadual é vista como um dos principais avanços do modelo mineiro de prevenção.

Com a entrada do período seco, a expectativa é de aumento do risco de incêndios florestais em todo o estado. A estratégia integrada busca reduzir esse impacto por meio de ações coordenadas, ampliação da capacidade de resposta e fortalecimento da cultura de prevenção. A iniciativa também inclui campanhas de conscientização e ações educativas em regiões rurais, reforçando o papel da população na prevenção de queimadas irregulares.

Em um cenário marcado por estiagens mais prolongadas, aumento das temperaturas e maior ocorrência de eventos climáticos extremos, a prevenção de incêndios florestais deixa de ser uma preocupação restrita ao setor produtivo e passa a integrar a agenda estratégica de proteção ambiental, segurança pública e desenvolvimento econômico. Com a união entre empresas, governo e forças de resposta, Minas Gerais busca transformar a experiência acumulada nos últimos anos em um modelo permanente de cooperação, capaz de proteger vidas, patrimônios, florestas plantadas e áreas nativas diante de um dos principais desafios da estação seca no país.

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