O crescimento do e-commerce criou um novo problema dentro dos condomínios: a portaria virou ponto de recebimento, triagem e retirada de encomendas. Com mais pacotes chegando todos os dias, prédios residenciais e corporativos passaram a lidar com filas, extravios, acúmulo de volumes e sobrecarga das equipes.
Esse gargalo abriu espaço para soluções como armários inteligentes, conhecidos como smart lockers, e sistemas digitais de gestão de encomendas. A ideia é tirar parte da operação manual da portaria e permitir que moradores retirem pacotes com mais autonomia, inclusive fora do horário comercial.
Segundo dados da ABCOmm citados pela Pitney Bowes, o comércio eletrônico movimentou R$ 100,5 bilhões no Brasil no primeiro semestre de 2025. No mesmo período recente, estimativas do setor apontam que o volume de encomendas em condomínios cresceu mais de 40% em dois anos.
Portarias viraram parte da logística sem estrutura para isso
A mudança no consumo colocou os condomínios dentro da cadeia de entrega. Antes voltadas principalmente a segurança, controle de acesso e atendimento a moradores, muitas portarias agora precisam armazenar, registrar e entregar dezenas ou centenas de pacotes.
“O prédio virou parte da cadeia logística, sem ter sido planejado para isso. A portaria, que antes tinha foco em controle de acesso e segurança, hoje precisa lidar com uma operação intensa de recebimento, armazenamento e entrega de encomendas”, afirma Thais Mendes, head of Customer Experience na área de Smart Solutions da Pitney Bowes.
Na prática, o problema não está só na quantidade de pedidos. O desafio envolve rastrear quem recebeu, avisar o morador, evitar troca de pacotes, organizar retirada e manter segurança. Quando tudo isso depende de planilhas, cadernos ou controles manuais, o risco de erro aumenta.
Armários inteligentes tentam tirar peso da portaria
Os smart lockers funcionam como pontos automatizados de retirada. A encomenda é colocada em um compartimento, o morador recebe uma notificação e pode buscar o pacote com autenticação digital.
Esse modelo reduz a necessidade de intermediação da equipe de portaria e cria um histórico rastreável de cada entrega. Para condomínios com grande volume de encomendas, a solução também ajuda a diminuir filas e liberar espaço físico.
A parceria entre Pitney Bowes e Clique Retire mostra o tamanho dessa demanda. Em 60 dias, a operação processou mais de 18.800 protocolos em condomínios residenciais e corporativos, com redução média de 40% no tempo gasto com recebimento, protocolo e gestão de pacotes.
No mesmo período, foram usados cerca de 2 mil compartimentos de smart lockers, com mais de 65 empresas beneficiadas e mil apartamentos atendidos, segundo os dados das companhias.
Última milha chegou à porta do condomínio
A chamada última milha, etapa final da entrega até o consumidor, deixou de terminar apenas no endereço. Em prédios, ela agora envolve também a logística interna: portaria, armazenamento, aviso ao morador e retirada.
Para Gustavo Artuzo, CEO da Clique Retire, a automação passou a ser uma necessidade para evitar colapso operacional.
“A logística moderna exige que a entrega se adapte à rotina do consumidor, e não o contrário. Os condomínios que ignoram a automação das encomendas estão fadados ao colapso operacional. Nossa parceria com a Pitney Bowes entrega exatamente essa liberdade: o morador tem a conveniência de retirar sua encomenda 24/7, com segurança digital, enquanto a administração ganha uma portaria organizada e focada no que realmente importa: a segurança e o bem-estar dos condôminos”, afirma.
O mercado potencial é grande. Segundo o Censo Condominial 2025/2026 citado no material, o Brasil tem mais de 327 mil condomínios ativos, onde vivem cerca de 39 milhões de moradores. Um em cada oito endereços do país estaria dentro de arranjos condominiais.
Tecnologia vira ferramenta de gestão para síndicos
A adoção de armários inteligentes também muda a rotina de administradoras e síndicos. Em vez de tratar encomendas como uma tarefa informal da portaria, o condomínio passa a organizar o fluxo com registros, notificações e regras mais claras.
Thais Mendes avalia que a automação muda o papel da portaria dentro do prédio.
“A principal mudança está além da eficiência. Está na forma como a portaria passa a atuar. Com a automação, ela deixa de ser um ponto operacional sobrecarregado e passa a assumir um papel mais estratégico dentro do condomínio”, diz.
Esse avanço deve ganhar força conforme o e-commerce continuar crescendo. Mais compras online significam mais entregas, mais tentativas de recebimento e mais pressão sobre estruturas que não foram desenhadas para funcionar como pequenos centros logísticos.
Para condomínios, a escolha passa a ser entre absorver esse volume com processos manuais ou transformar a entrega em uma operação estruturada. “Os condomínios já fazem parte da cadeia logística, independentemente de estarem preparados ou não. A diferença, daqui para frente, estará na capacidade de transformar essa operação em algo estruturado e que seja eficiente e escalável, sem sobrecarregar pessoas ou comprometer a experiência dos moradores”, afirma Artuzo.
