Depois de mais de três décadas em empresas do sistema financeiro, Mary Mizuno trocou a carreira executiva pela criação de uma plataforma que pretende transformar a compra e venda de pequenas empresas em uma experiência semelhante à de um aplicativo de relacionamentos.
Batizada de SoM&A, a startup cruza informações de compradores e vendedores para identificar negócios compatíveis. O sistema utiliza inteligência artificial para analisar critérios como setor de atuação, localização, faturamento, valor pedido e capacidade financeira antes de sugerir os pares com maior probabilidade de concluir uma transação.
A proposta é digitalizar etapas que normalmente dependem de bancos de investimento, consultorias e escritórios especializados, como avaliação da empresa, análise de riscos, verificação de documentos e negociação.
A ambição acompanha o tamanho do mercado. A SoM&A projeta concluir 6 mil operações por ano e alcançar R$ 2,1 bilhões em faturamento anual até o fim de 2027, principalmente por meio de taxas cobradas sobre os negócios fechados.
A sucessão que termina com empresas fechadas
A ideia surgiu quando Mizuno participava de uma formação voltada a conselheiros de empresas familiares. Durante o curso, identificou um problema recorrente: negócios saudáveis encerravam as atividades porque não havia sucessores interessados em assumir a operação.
Nessas situações, funcionários eram demitidos, equipamentos vendidos e apenas o imóvel permanecia como patrimônio. Em vez de passar para um novo controlador, a empresa simplesmente desaparecia.
Ao pesquisar soluções internacionais, a executiva encontrou uma plataforma japonesa que utilizava tecnologia para aproximar compradores e vendedores de pequenos negócios. O modelo serviu de inspiração, mas precisou ser adaptado à realidade brasileira.
“O M&A sempre foi tratado como uma oportunidade reservada às grandes empresas. Queremos democratizar esse processo para pequenas e médias empresas”, afirma Mizuno.
Como funciona o ‘match’ entre empresas
A SoM&A opera por assinatura. Empresários interessados em comprar ou vender uma companhia pagam o equivalente a um salário mínimo por ano para acessar as ferramentas da plataforma.
O pacote inclui valuation preliminar, análise de crédito, consulta de certidões, simuladores financeiros, organização de documentos e recursos de due diligence.
A plataforma também consulta bases públicas, tribunais e bureaus de crédito para identificar processos judiciais, dívidas, ações trabalhistas e outros fatores que podem interferir na negociação.
Depois dessa etapa, o algoritmo cruza dezenas de variáveis e apresenta entre dez e vinte compradores ou vendedores com maior aderência à operação. A infraestrutura tecnológica é executada sobre a nuvem da Amazon Web Services.
O modelo de receita combina a assinatura com uma taxa de sucesso. Assim, a principal remuneração da plataforma ocorre quando a compra ou venda da empresa é efetivamente concluída.
Mercado potencial chega a R$ 94 bilhões
O público escolhido pela SoM&A é formado por empresas com faturamento anual inferior a R$ 50 milhões, faixa normalmente pouco atendida pelas boutiques tradicionais de fusões e aquisições.
Processos de M&A exigem avaliação financeira, auditoria, análise jurídica e negociação. Como essas etapas demandam profissionais especializados, operações menores nem sempre justificam os custos cobrados por consultorias convencionais.
Segundo os dados apresentados pela startup, o Brasil possui 18,8 milhões de CNPJs com faturamento abaixo de R$ 50 milhões por ano. A estimativa é de que esse universo represente um mercado potencial de R$ 94 bilhões anuais.
A tecnologia entra justamente para reduzir o custo da operação e permitir que serviços antes concentrados em grandes transações sejam oferecidos a negócios de menor porte.
Franquias foram escolhidas para a estreia
Apesar de planejar atender diferentes setores, a SoM&A começou pelo mercado de franquias. O segmento movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano e registra milhares de transferências de unidades entre operadores.
A plataforma já reúne negociações envolvendo marcas como Lupo, Óticas Center e GiOlaser, além de companhias dos setores de logística e cibersegurança com faturamento entre R$ 5 milhões e R$ 15 milhões.
Para a fundadora, comprar uma empresa existente pode ser mais previsível do que iniciar um negócio do zero. O comprador recebe uma operação com histórico financeiro, clientes, funcionários treinados, fornecedores e modelo comercial já testado.
A due diligence, por sua vez, ajuda a identificar passivos e inconsistências antes da assinatura do contrato.
