A proposta do governo dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 25% sobre o café instantâneo importado do Brasil disparou alertas na indústria de alimentos de ambos os países. A Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) advertiu formalmente que a taxação cria um risco severo de desabastecimento e aumento de custos operacionais para as torrefadoras e distribuidoras norte-americanas, cujos repasses financeiros inflacionarão o preço final pago pelos consumidores nas gôndolas dos supermercados. O Brasil responde atualmente por mais de um quinto (20%) de todo o café solúvel que entra em território americano, o equivalente a um volume de 15.500 toneladas escoadas anualmente.
A barreira alfandegária foi apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) no escopo da investigação geopolítica amparada na Seção 301 da legislação mercantil.
A pressão protecionista contra o agronegócio brasileiro é ainda mais complexa devido a uma segunda frente tributária: a administração do presidente Donald Trump anunciou, de forma paralela, uma tarifa adicional de 12,5% incidente sobre mercadorias de mais de 60 nações, incluindo o café instantâneo do Brasil. Na prática atual, o solúvel nacional já lida com uma tarifa global temporária de 10% fixada pela Casa Branca, adotada após os tribunais federais dos EUA revogarem uma taxação anterior de 50% que pesava sobre os produtos brasileiros.
Para barrar o avanço do tarifaço, comitivas técnicas da Abics, do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) e da Associação Nacional de Café dos EUA (NCA) uniram forças em audiências públicas promovidas pelo USTR em Washington. Os representantes setoriais argumentaram que a medida punitiva penalizará de forma desproporcional as famílias norte-americanas de menor poder aquisitivo, que dependem do café instantâneo como uma opção matinal acessível.
O diretor-executivo da Abics, Aguinaldo José de Lima, ressaltou o caráter de dependência externa do mercado americano, pontuando que as indústrias dos EUA fabricam menos de 6% do café solúvel consumido internamente e que nenhum outro país exportador possui capacidade instalada ou logística para suprir a lacuna do fornecimento brasileiro com o mesmo patamar de preço e competitividade.
O braço institucional da indústria também apontou uma contradição técnica na elaboração da lista de sanções do USTR. Segundo as lideranças do setor, a cadeia do grão não enxerga justificativa regulatória para a manutenção do imposto, dado que quase todas as outras vertentes da commodity foram contempladas com isenções alfandegárias pelo governo americano — inclusive variantes de café solúvel com sabor agregado. O impasse adquire contornos críticos para o varejo de bebidas dos EUA em função do comportamento do consumidor local: dados históricos da NCA revelam que a popularidade do café instantâneo quase dobrou no país, saltando de uma preferência de 6% dos consumidores diários em 2021 para uma fatia consolidada de 11% do mercado atual.
