A Terra Genomics captou R$ 18 milhões, equivalentes a US$ 3,3 milhões, em uma rodada seed destinada à instalação de sua estrutura de pesquisa e ao desenvolvimento de uma plataforma tecnológica para o mercado de bioinsumos.
O aporte foi liderado pelo Pitanga Redux, fundo voltado a empresas de base científica, com participação da Bold.t Capital, gestora especializada em transição climática. Os recursos serão aplicados na implantação da operação no Polo de Alta Tecnologia de Campinas, no interior de São Paulo.
Criada em 2025, a deeptech pretende combinar engenharia metabólica, biologia sintética e inteligência artificial para aprimorar geneticamente bactérias, leveduras e outros microrganismos utilizados na produção de insumos biológicos para a agricultura.
A proposta é desenvolver organismos com maior capacidade de fixar nitrogênio, solubilizar fósforo, produzir moléculas bioativas e contribuir para o controle de doenças e pragas.
“Existe um potencial enorme de melhorá-los geneticamente e chegar a organismos dez, cem ou até mil vezes melhores do que aqueles encontrados originalmente”, afirma Mateus Schreiner Garcez Lopes, fundador e CEO da Terra Genomics.
Plataforma pode reduzir desenvolvimento de anos para meses
Grande parte dos bioinsumos disponíveis atualmente é produzida a partir de microrganismos encontrados na natureza. A Terra Genomics pretende aplicar técnicas de edição genética para melhorar características específicas desses organismos e aumentar sua eficiência.
O processo será conduzido integralmente em laboratório. Segundo a startup, a plataforma poderá desenvolver uma nova linhagem em até dois meses, enquanto a seleção convencional de microrganismos naturais e sua validação em campo pode levar de dois a três anos.
A tecnologia opera em um ciclo conhecido como Design-Build-Test-Learn. Primeiro, modelos computacionais analisam informações biológicas e identificam modificações genéticas com maior possibilidade de sucesso.
As alterações selecionadas são implementadas em laboratório e dão origem a novas linhagens. Em seguida, os microrganismos passam por testes laboratoriais e agronômicos, cujos resultados retornam aos sistemas de inteligência artificial.
Esse processo contínuo permite que a plataforma aprimore sua capacidade de previsão e reduza o número de experimentos necessários nos ciclos seguintes.
Empresas de bioinsumos serão os principais clientes
O modelo de negócios da Terra Genomics prevê a prestação de serviços para fabricantes de insumos biológicos que não possuem equipes internas de engenharia metabólica.
A startup não pretende substituir a busca por novos organismos na natureza. A estratégia é utilizar esses microrganismos como ponto de partida para o desenvolvimento de versões mais eficientes.
Segundo Lopes, empresas brasileiras interessadas nesse tipo de tecnologia ainda precisam recorrer a fornecedores estrangeiros, geralmente acostumados a atender grandes grupos globais.
A oportunidade identificada pela companhia está em adaptar esse serviço à realidade do mercado nacional, com custos mais adequados e uma estrutura local de pesquisa.
A tecnologia também poderá reduzir despesas industriais. Microrganismos mais eficientes exigiriam menor quantidade de material biológico na fabricação dos produtos, sem comprometer o desempenho no campo.
Propriedade intelectual entra na estratégia
Outro objetivo da deeptech é ampliar a proteção intelectual dos produtos biológicos. Muitas soluções disponíveis no mercado perdem diferenciação ao longo do tempo e passam por processos de comoditização.
Com a engenharia genética, a empresa pretende registrar patentes relacionadas às mutações realizadas e aos processos tecnológicos empregados no desenvolvimento das novas linhagens.
“Não queremos apenas fazer pesquisa e depois ver se é possível patentear. O desenvolvimento já nasce olhando para a estratégia de propriedade intelectual”, diz Lopes.
O executivo reúne mais de 90 pedidos de patentes depositados ao longo da carreira. Ane Zeidler, diretora de engenharia metabólica da startup, soma mais de 60.
Antes de fundar a Terra Genomics, Lopes ocupou cargos nas áreas de inovação, tecnologia, transição energética e investimentos da Raízen. Zeidler atuava anteriormente na área de engenharia metabólica da Braskem.
