A Tivita passou a oferecer antecipação de honorários para médicos e outros profissionais da saúde que aguardam os repasses dos planos. A nova frente de crédito nasceu a partir dos dados reunidos pela plataforma ao automatizar o faturamento e a gestão administrativa de clínicas, hospitais e grupos médicos.
Em muitas operações, o intervalo entre o atendimento realizado e o pagamento da operadora pode chegar a 70 dias. Esse prazo pressiona o capital de giro das clínicas, que precisam arcar antecipadamente com salários, aluguel, insumos, equipamentos e outras despesas.
Com a antecipação, a Tivita pretende permitir que os profissionais recebam antes, enquanto a startup aguarda o pagamento definitivo da operadora. As condições comerciais, taxas e limites da nova solução não foram detalhados.
A entrada no crédito amplia o modelo de negócio criado pelos cofundadores Claudio Franco, CEO, e Amilton Paglia, diretor de Produtos. A companhia deixa de atuar apenas como fornecedora de software e passa a utilizar os dados da própria operação para oferecer serviços financeiros.
Agentes de IA prepararam o caminho para o crédito
A Tivita lançou, em 2025, duas agentes digitais voltadas à rotina administrativa das empresas de saúde. Uma delas passou a automatizar o faturamento realizado junto às operadoras, processo que envolve conferência de procedimentos, documentos, códigos, valores e regras contratuais.
A automação ajudou a startup a conquistar clientes maiores e a formar uma base mais ampla de informações sobre o comportamento financeiro das clínicas.
Esses registros passaram a sustentar um modelo próprio de avaliação de risco. Em vez de depender exclusivamente dos documentos tradicionalmente exigidos pelos bancos, a Tivita consegue analisar dados gerados durante a utilização da plataforma.
“À medida que ajudamos o cliente a automatizar os processos, os dados ficam aqui. Nosso modelo de avaliação de risco foi construído pelas variáveis da nossa base e pelo relacionamento com esse cliente”, afirma Franco.
A empresa pode observar, por exemplo, o volume de atendimentos, o histórico dos repasses, os prazos médios de pagamento, a frequência de glosas e a previsibilidade dos valores a receber.
Clínicas enfrentam espera e imprevisibilidade
A demora no recebimento é um dos principais desafios financeiros enfrentados por clínicas e profissionais que prestam serviços para planos de saúde.
Depois do atendimento, a empresa precisa enviar a cobrança à operadora, que confere os dados antes de realizar o pagamento. Erros de preenchimento, ausência de documentos ou divergências sobre procedimentos podem prolongar o processo.
Também existem as chamadas glosas, quando o plano recusa total ou parcialmente uma cobrança. A clínica precisa então corrigir ou contestar a decisão, o que pode aumentar ainda mais o prazo.
Mesmo quando a operação é saudável, essa diferença entre a prestação do serviço e o recebimento cria necessidade de capital de giro.
Ao antecipar os honorários, a Tivita tenta reduzir essa distância. A startup assume o risco da espera e cobra pela disponibilização antecipada dos recursos.
Dados próprios mudam a análise de risco
Em um pedido tradicional de crédito, bancos normalmente analisam balanços, demonstrativos financeiros, dívidas, garantias e histórico de pagamento.
Esse processo pode ser menos eficiente para empresas de saúde que possuem receitas recorrentes, mas enfrentam variações provocadas pelos prazos das operadoras.
A Tivita aposta que os dados operacionais oferecem uma leitura mais atualizada do negócio. Como a plataforma acompanha o faturamento, consegue identificar o valor efetivamente cobrado, o comportamento dos recebimentos e a regularidade da operação.
Essa informação pode ajudar a definir limites e taxas de forma mais específica para cada cliente.
O modelo também reduz a dependência de documentos preparados apenas no momento da solicitação. A avaliação passa a considerar um histórico construído ao longo do relacionamento entre a startup e a clínica.
A qualidade dessa análise, porém, dependerá da quantidade e da confiabilidade dos dados disponíveis. Clientes recentes ou com baixo volume de operações podem apresentar um histórico insuficiente para uma avaliação precisa.
Automação pode diminuir glosas
Além de viabilizar o crédito, a automação do faturamento pode reduzir erros que atrasam os pagamentos.
Ao conferir códigos, documentos e regras antes do envio à operadora, os agentes digitais ajudam a identificar inconsistências que poderiam resultar em glosas.
Esse ganho tem efeito duplo. A clínica recebe com maior previsibilidade e a Tivita reduz o risco associado à antecipação dos valores.
Quanto menor a frequência de cobranças recusadas, maior a segurança para calcular quanto poderá ser liberado antecipadamente.
A integração entre software e crédito cria uma vantagem em relação às instituições que analisam o cliente apenas a partir de informações financeiras gerais. A Tivita acompanha o processo que gera o recebível antes mesmo de o recurso ser pago.
Startup amplia atuação no mercado financeiro
O novo produto aproxima a Tivita do modelo de uma techfin, empresa de tecnologia que incorpora serviços financeiros a partir de uma relação já estabelecida com seus clientes.
Em vez de lançar uma conta ou um empréstimo genérico, a startup oferece crédito ligado a uma dor específica da operação médica: o prazo de pagamento dos planos.
Essa estratégia vem ganhando espaço entre plataformas de gestão empresarial. Softwares que controlam vendas, cobranças ou recebíveis possuem informações que podem ser usadas para avaliar riscos e oferecer capital de giro.
Para a Tivita, a antecipação também pode aumentar a retenção. Uma clínica que concentra gestão, faturamento e crédito na mesma plataforma enfrenta um custo maior para trocar de fornecedor.
Ao mesmo tempo, a empresa assume novas responsabilidades relacionadas à inadimplência, à proteção de dados e à transparência das condições financeiras.
