Trio mineiro cria “ChatGPT do turismo”, fatura com IA integrada ao WhatsApp e projeta milhões após superar negócio frustrado

Arquivo pessoal

A história da Blis AI, startup de inteligência artificial voltada para o setor de turismo, começou bem antes de a tecnologia ganhar tração. Rafael Cohen, Rodrigo Cioffi e Luiz Antunes se conheceram nos bancos da faculdade, no Ibmec, em Belo Horizonte (MG). Desde os primeiros trabalhos acadêmicos, o trio percebeu que a forte complementaridade de perfis, que unia visão de mercado, tino operacional e capacidade técnica, era o combustível perfeito para o empreendedorismo.

O batismo de fogo veio em 2020, em pleno estopim da pandemia, quando os três amigos, então com apenas 19 anos, decidiram criar o primeiro negócio juntos: a Easy Barbers. O marketplace conectava barbeiros autônomos a clientes que queriam cortar o cabelo em casa em um período de restrições sanitárias. A operação chegou a tracionar milhares de cortes na capital mineira, gerando um forte boca a boca.

Contudo, o avanço da vacinação trouxe um choque de realidade. “Nossa tese era de que o corte em casa continuaria forte, mas o público masculino valoriza a barbearia como um momento social”, relembram os fundadores. Em 2021, o negócio foi encerrado. O erro, porém, virou a principal escola do trio. “Entendemos que uma boa execução não basta. É preciso escolher um mercado grande, recorrente e com uma dor estrutural forte o suficiente para sustentar a escala”, avalia Cioffi, hoje COO da startup.

O desvio de rotas e a nova oportunidade

Após o fim da primeira empresa, cada sócio seguiu um caminho estratégico que, anos depois, convergiu na fundação da Blis AI. Rafael Cohen mudou-se para São Paulo e passou quase quatro anos imerso na BeFly, gigante do turismo, onde mapeou os bastidores operacionais e as dores crônicas das agências de viagens. Luiz Antunes aprofundou-se em tecnologia, estudando Engenharia de Software na PUC para se consolidar como um CTO de base robusta. Já Rodrigo Cioffi fundou a Digital Bot, empresa parceira da Blip, que chegou a ter 70 colaboradores, acumulando vasta bagagem em gestão e produto.

A faísca para a nova startup acendeu quando Cohen e Antunes passaram uma temporada no Vale do Silício, estudando a evolução da Inteligência Artificial Generativa. Eles perceberam que o mercado de turismo movimentava volumes bilionários, mas ainda operava ancorado em processos extremamente manuais, e-mails, ligações e sistemas legados das décadas de 1990 e 2000.

Diferente dos chatbots tradicionais de atendimento, que funcionam apenas como um menu de perguntas frequentes (FAQ), o trio decidiu criar uma IA verticalizada. Ligada diretamente a sistemas complexos do setor (como GDS, NDC e back-offices), a plataforma nasceu capaz de executar tarefas de ponta a ponta. Hoje, a tecnologia realiza de forma automatizada buscas, reservas, inclusão de bagagens, cancelamentos e a complexa remarcação de voos diretamente pelo WhatsApp, por texto ou áudio.

Eficiência de 400% e virada em contrato multimilionário

Na prática, as empresas que adotam os agentes virtuais da Blis AI chegam a registrar um ganho de produtividade de até 400% em determinados processos operacionais, se comparados ao trabalho estritamente humano, liberando os consultores para atendimentos mais estratégicos e complexos.

Essa eficiência virou argumento decisivo de vendas e retenção. Recentemente, uma agência corporativa parceira estava prestes a perder sua conta mais importante: uma grande empresa que movimentava dezenas de milhões de reais por ano em passagens e já estava com concorrência aberta para migrar para um concorrente. Ao apresentar a tecnologia da Blis AI como um diferencial na palma da mão dos viajantes para resolver problemas pelo WhatsApp, a agência conseguiu reverter o bid e segurar o contrato estratégico.

Disputa de investidores, nova rodada e olho no faturamento

Os resultados práticos do modelo de negócio B2B2C começaram a chamar a atenção do ecossistema de capital de risco. Após realizar o lançamento oficial da marca na LACTE 2026 e captar R$ 1 milhão em uma rodada pré-seed para estruturar o time de engenharia, a Blis AI entrou definitivamente no radar dos fundos de investimento.

A tração da startup tem sido tão acelerada que os fundadores já receberam assédio de investidores interessados em aportar capital sob uma avaliação de mercado (valuation) de R$ 30 milhões para a empresa. De olho no apetite do mercado e nos planos de expansão na América Latina, o trio acabou de fechar oficialmente uma nova rodada de captação de investimentos nesse segundo semestre deste ano.

O novo fôlego financeiro vai impulsionar metas ousadas: a Blis AI projeta encerrar o ano de 2026 com uma Receita Anual Recorrente (ARR) de R$ 8 milhões e alcançar a marca de 150 contratos ativos. A startup, que já conta com uma parceria de peso com a Flytour, soma atualmente uma fila de espera de mais de 160 agências aguardando a implementação da tecnologia.

“A inteligência artificial vai transformar profundamente o papel das agências de viagens nos próximos anos. A IA vai assumir o trabalho massivo e repetitivo, enquanto o ser humano focará no relacionamento, na confiança e no atendimento consultivo. Quem adotar essa transformação primeiro terá uma vantagem competitiva imbatível”, finaliza o CEO Rafael Cohen.

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