Depois de ajudar a construir um dos principais ecossistemas de moda digital do país, Ana Isabel de Carvalho Pinto decidiu começar uma nova fase. Fundadora do Shop2gether e cofundadora do OQVestir, a empresária lançou a Visionary Brazil, plataforma voltada ao desenvolvimento de marcas da economia criativa.
A proposta é combinar investimento, mentoria, estrutura de gestão e acesso a uma rede de contatos construída ao longo de quase três décadas no mercado de moda. O foco inicial está em negócios de moda, design, lifestyle e bem-estar.
A expectativa da Visionary Brazil é acompanhar entre cinco e oito empresas em 2026 e faturar R$ 10 milhões no primeiro ciclo anual de operação.
Como nasceu a Visionary Brazil
A Visionary Brazil foi criada para apoiar marcas criativas que já têm identidade, produto e potencial de mercado, mas ainda precisam de estrutura para crescer. A empresa nasce com uma equipe fixa de seis pessoas e grupos dedicados para cada projeto acompanhado.
O modelo varia conforme o estágio de cada negócio. A plataforma pode investir capital, assumir participação societária, atuar na gestão, prestar mentoria estratégica ou abrir portas para varejistas, investidores, imprensa e grupos de moda.
A tese de Ana Isabel é que muitos talentos brasileiros da economia criativa ainda ficam limitados por falta de gestão, capital e acesso a redes comerciais. A Visionary tenta ocupar justamente esse espaço.
“Mais do que aportar capital, o trabalho é construir marcas. O diferencial está no acesso que conseguimos oferecer a grupos de moda, compradores, imprensa e investidores que uma marca autoral levaria anos para alcançar sozinha”, afirma.
Trajetória começou antes da moda digital
Antes de empreender no setor, Ana Isabel não planejava construir carreira na moda. Formada em Administração e com MBA em Marketing, começou no varejo e no atacado, onde aprendeu sobre desenvolvimento de produtos e funcionamento da indústria.
A virada veio em 2010, quando foi convidada a atuar em uma empresa de vendas online de roupas. Naquele momento, os clubes de compra começavam a ganhar força no e-commerce brasileiro, mas o mercado de moda digital ainda estava em fase inicial.
Depois de tentar reposicionar a operação, Ana Isabel percebeu espaço para um modelo diferente. A partir dessa leitura, criou o Shop2gether.
A proposta era reunir diferentes marcas em uma única plataforma, mantendo o estoque sob responsabilidade dos próprios parceiros. Em vez de operar como loja tradicional, o Shop2gether funcionava como uma grande vitrine digital para marcas de moda.
“Eu fui aproveitando todas as oportunidades que apareceram. O grande diferencial do empreendedor é saber enxergar uma oportunidade e não ter medo de desbravá-la”, diz.
Shop2gether abriu caminho para o novo negócio
Com o crescimento do Shop2gether, Ana Isabel também estruturou uma empresa de serviços voltada a marcas que queriam entrar no comércio eletrônico. Durante a pandemia, essa operação foi adquirida pela Infracommerce.
O movimento ajudou a consolidar a posição da executiva no mercado e abriu espaço para que ela assumisse uma atuação mais estratégica. Aos poucos, Ana Isabel se afastou da operação diária do grupo e passou a desenhar o que viria a ser a Visionary Brazil.
A nova empresa nasce com base nessa experiência. A empresária quer usar o conhecimento acumulado em e-commerce, varejo, luxo, marketing, relacionamento com marcas e desenvolvimento de negócios para acelerar empresas criativas.
“Para quem está começando, poder sentar na mesa com um CEO, um grande varejista ou um editor de revista é muito difícil. São essas portas que eu também abro através da Visionary”, afirma.
Plataforma quer criar um ecossistema de marcas
A Visionary foi desenhada para funcionar como um ecossistema em que um negócio pode impulsionar o outro.
Entre as primeiras iniciativas está a Cercle, plataforma de recommerce de moda de luxo. O sistema permite que peças compradas por consumidoras sejam digitalizadas e revendidas posteriormente dentro do próprio ecossistema, gerando créditos para novas compras.
A empresa também participa da organização do FFW Brasil Fashion Awards, premiação dedicada a reconhecer talentos da moda nacional, e acompanha o desenvolvimento de marcas emergentes, como a Normando.
Outra frente em construção envolve negócios ligados a criadores de conteúdo, mas os detalhes ainda não foram divulgados.
Segundo Ana Isabel, a procura por novos projetos superou as expectativas iniciais. A agenda de 2026 está praticamente preenchida, e novas iniciativas já começam a ser avaliadas para 2027.
Economia criativa mira escala global
Por trás da Visionary Brazil, a empresária defende uma missão mais ampla: profissionalizar a economia criativa brasileira.
Na avaliação de Ana Isabel, áreas como moda autoral, design e artesanato ainda são frequentemente vistas apenas pelo lado cultural. Para ela, o Brasil tem talento, identidade e repertório criativo, mas precisa de estrutura para transformar esses ativos em negócios escaláveis.
“Eu quero tirar isso do lado cultural e levar para o lado comercial. O Brasil tem um legado criativo, uma ancestralidade e saberes artesanais muito valorizados fora do país, mas ainda não temos uma estrutura capaz de profissionalizar essas pessoas para atender o mercado internacional”, afirma.
