A Vulcabras, dona da Olympikus e responsável pelas operações de Mizuno e Under Armour no Brasil, encerrou 2025 com R$ 4,1 bilhões em faturamento e 23 trimestres consecutivos de crescimento. O resultado contrasta com o cenário encontrado por Pedro Bartelle quando assumiu o comando da companhia, em 2015.
Na época, a empresa acumulava cerca de R$ 1,1 bilhão em dívida, vinha de anos de prejuízo e ainda sofria com a concorrência de produtos asiáticos no mercado brasileiro de calçados.
“Assumi num momento em que a empresa ainda tinha as rédeas na mão, mas ainda não performava. Felizmente deu tudo muito certo. Montamos uma equipe muito boa e traçamos um plano de recuperação”, afirma Bartelle, CEO da Vulcabras, em entrevista ao podcast De Frente com CEO, da EXAME.
Hoje, a companhia emprega cerca de 24 mil pessoas e investiu mais de R$ 1 bilhão nos últimos cinco anos em expansão e modernização de fábricas.
Reestruturação abriu caminho para a virada
A recuperação da Vulcabras começou antes da chegada de Bartelle à presidência. Entre 2011 e 2014, a empresa passou por uma reestruturação depois de apostar em investimentos industriais num momento em que havia expectativa de maior proteção à indústria nacional contra importados asiáticos.
A estratégia não teve o efeito esperado. Mesmo com medidas antidumping, os produtos importados continuaram pressionando o setor. A saída foi rever operações, reduzir estruturas menos eficientes e reorganizar a estratégia da companhia.
“Era uma empresa que vinha dando prejuízo e precisava virar”, diz Bartelle.
Em 2017, a Vulcabras migrou para o Novo Mercado da B3, etapa que ampliou padrões de governança e abriu uma nova fase na relação com investidores.
Olympikus entrou na corrida para mudar de patamar
Parte importante da virada veio de uma aposta na corrida de rua. Há cerca de seis anos, Bartelle identificou o crescimento do esporte no Brasil e colocou uma meta para a equipe: fazer a Olympikus vencer uma maratona.
“Nós precisamos fazer um produto técnico e vencer uma maratona. Se vencermos uma maratona, vamos conseguir trazer mais prestígio para a marca Olympikus”, afirma.
A estratégia levou ao desenvolvimento da linha Corre, criada com participação de atletas, especialistas em biomecânica e corredores profissionais e amadores.
O produto ajudou a reposicionar a Olympikus no segmento de performance, historicamente dominado por marcas internacionais. Segundo a empresa, a linha está hoje entre as mais usadas por corredores brasileiros.
“Foi muito legal convencer todo mundo de que uma marca brasileira poderia criar produtos, posicionamento e estratégia para competir em nível internacional”, afirma Bartelle.
A próxima geração da linha, o Corre 6, deve chegar ao mercado em 2027.
Centro de P&D no RS sustenta nova fase
A Vulcabras concentra em Parobé, no Rio Grande do Sul, o maior centro de pesquisa e desenvolvimento de calçados esportivos da América Latina.
É nesse polo que a empresa desenvolve produtos para Olympikus, Mizuno e Under Armour. A companhia deixou para trás categorias menos estratégicas e passou a concentrar recursos em esporte, performance e tecnologia.
“Hoje temos todos os recursos para criar e produzir qualquer tecnologia esportiva existente no mundo”, afirma Bartelle.
A mudança colocou a empresa em uma disputa mais direta com multinacionais do setor esportivo, especialmente no segmento de corrida.
Crescimento não pode sacrificar margem
Mesmo com a expansão, Bartelle afirma que a empresa não pretende crescer a qualquer custo. A prioridade é manter rentabilidade, especialmente em um setor afetado por custos de matérias-primas ligadas ao petróleo.
A volatilidade internacional e os conflitos no Oriente Médio pressionaram insumos usados em calçados esportivos, como espumas. A Vulcabras já precisou reajustar preços de parte das coleções.
“A defesa maior da empresa é continuar crescendo, mas sempre com muito bons resultados”, afirma o CEO.
Lojas e operação na Espanha entram no plano
A Vulcabras também pretende ampliar a presença no varejo físico. A empresa abrirá duas novas lojas monomarca da Under Armour, com foco em exposição de produtos e fortalecimento da experiência de marca.
“A gente vai ter mais lojas para poder mostrar melhor a exposição dos nossos produtos e valorizar mais as nossas marcas”, afirma Bartelle.
O executivo também considera, no futuro, a criação de lojas conceito da Olympikus, especialmente depois do avanço da marca no mercado de corrida.
Fora do Brasil, a companhia começou a testar a Olympikus na Espanha. A operação ainda é pequena e funciona como laboratório para entender o consumidor europeu. A primeira aposta foi a linha Corre, com vendas online.
“Por que uma marca brasileira que tem tanto sucesso no Brasil não pode se tornar um item de desejo em outros países?”, questiona o executivo.
Apesar do teste internacional, Bartelle afirma que a prioridade segue no mercado nacional. “Por enquanto, a prioridade continua sendo o Brasil”, diz.
A Vulcabras foi fundada em 1952 pelos irmãos Pedro e Alexandre Grendene Bartelle. Em 2007, incorporou a Azaleia, tradicional fabricante gaúcha de calçados, e consolidou Parobé como um dos principais centros produtivos do grupo.
