Final de ano é uma época que, entre outras celebrações, é marcada por abundância de pensamentos mágicos: vestir roupas brancas na noite de Réveillon, guardar sementes de uva, comer romã, pular sete ondas, entre tantas outras.
Todos os pensamentos, orações e energias são canalizados para que o ano que começa seja melhor que aquele que se encerra. Sabemos que são necessários muito mais do que os ritos acima mencionados, mas diante de tanta complexidade do mundo, um pouco de sonhos e fantasias também é bom.
Passado o Dia dos Reis, junto com o desmonte das árvores de Natal, a vida vai retomando o seu ritmo e, como todo ano, muitos de nós fazemos planos, traçamos metas e objetivos para o novo ciclo que se inicia.
Num mundo cada vez mais complexo e incerto, a conectividade facilita todos os tipos de comparações e as demandas de curto prazo acabam ganhando um peso muito maior do que normalmente teriam.
Paradoxalmente ao aumento da expectativa de vida, onde se tornar centenário deixou de ser ficção, as atenções estão majoritariamente voltadas para objetivos de curto prazo tais como: planos de viagem, cuidados estéticos e como exemplo de ambição de longo prazo para alguns, a compra de uma casa própria.
As tecnologias disponíveis nos impõem um ritmo cada vez mais acelerado. Responder a e-mails, mandar mensagens de texto enquanto participamos de reuniões (presenciais ou virtuais) passou a ser um novo normal, para dizer o mínimo.
Nesse emaranhado de situações da vida profissional e familiar, as demandas assumem caráter de urgência, e mal temos tempo para priorizá-las. Aquilo que mais dói ganha prioridade.
Excetuando-se as demandas externas, que já vêm com os prazos determinados, questões de foro pessoal de longo prazo, por um excesso de concorrência de agenda tendem a ser colocadas no segundo plano.
São as ditas questões importantes, mas não urgentes. Elas podem se referir desde o planejamento do desenvolvimento profissional, até metas financeiras de longo prazo ou a prevenção para uma velhice saudável.
Difícil alguém negar a sua importância, mas não é só a falta de tempo que dificulta a priorização. Estabelecer metas implica em abrir mão das coisas que estejam fora do escopo. Pensar que temos de renunciar a alguns prazeres de curto prazo nos desmotiva.
Na verdade, motivos não faltam, tais como: “não é justo”, “mereço”, “olha o quanto estou dando duro”, “um pouco não vai fazer mal” e “depois eu compenso” e o que tem de errado se todo mundo faz? Se esses pensamentos forem inconscientes, a sua força é ainda maior, pois não há base objetiva para sua contraposição.
Curioso como tendemos a aplicar o conceito de justiça a partir dos nossos interesses pessoais. Tendemos a considerar injusto, sempre que algo contraria a nossa vontade. Esquecemos que o mundo não foi feito para atender a nossos desejos.
Definir objetivos e metas de médio e longo prazo é estabelecer o rumo que queremos seguir, não é plano detalhado, tampouco imutável. Ela tem o poder de nos mostrar se estamos na rota ou se nos desviamos. Se sim, o quanto e o que será necessário para retornarmos ao caminho.
Isso nos dá a oportunidade de colocarmos nossos anseios no centro das decisões, trocando as comparações com os outros, e nos colocando a nós mesmos como parâmetro de medida de evolução. Afinal, para quem você prestará contas no futuro?
Penso que a maior dificuldade, não seja a de elencar desejos de longo prazo, mas sim, conseguir se desconectar do turbilhão diário e transformar os anseios em planos concretos. A correria é tanta que, quando terminamos de atender às demandas não nos sobra energia. Precisamos relaxar, descansar, nos desconectar.
Romper a dominância dos temas urgentes e se dedicar a temas importantes, mas que no curto prazo não são urgentes, requer disposição e, principalmente, disciplina para fazer o seguimento periódico. Isso, é para poucos.
“You make the choices and the choices makes you”. No final, não há como escapar, a responsabilidade é sempre sua.








