Um relatório da Citrini Research agitou mercados financeiros ao prever que a inteligência artificial avançaria de forma acelerada nos próximos dois anos, eliminando empregos em larga escala e gerando o que os analistas chamam de “PIB fantasma” — um crescimento de produtividade que engorda os lucros das empresas, mas trava a economia ao reduzir o poder de compra de trabalhadores demitidos e sem recolocação equivalente no mercado.
Para Álvaro Massad, professor e pesquisador de novas tecnologias da FGV, o cenário é real, mas o Brasil tem um ritmo próprio. “Reconhecendo que somos um país em desenvolvimento, existe um atraso natural na adoção plena da IA pelas empresas. Isso não vai acontecer em dois anos de forma generalizada”, afirma, em entrevista à EXAME. Doutor em administração pela FGV, com passagens por American Express, Xerox, Embratel e Intelbras, Massad atua hoje como diretor executivo da IT by Insight e percorre o país orientando empresas sobre como adotar a tecnologia.
Febre sem planejamento
O especialista reconhece que a velocidade de evolução dos modelos de linguagem, os LLMs que sustentam a maioria das aplicações de IA disponíveis no mercado, é inegável e crescente. A cada semana, big techs ocidentais e chinesas lançam atualizações significativas, o que acelera o surgimento de aplicações específicas para tarefas antes feitas por humanos. Os antigos contact centers já são um exemplo concreto: substituídos progressivamente por bots e automações, agora veem funções mais sofisticadas migrarem para a IA.
Ainda assim, Massad vê mais pressa do que estratégia nas empresas brasileiras. “Muitas estão gastando dinheiro em IA sem saber exatamente para quê, algo que não fariam em outras áreas do negócio”, diz. Nos cursos e workshops que ministra há dois anos, e que só aumentaram de demanda, ele identifica três perfis: quem usa muito, quem usa pouco e quem usa apenas para tarefas básicas. Essa heterogeneidade, segundo ele, indica que o desemprego massivo causado pela IA ainda está distante, mas não é motivo para inércia.
Desigualdade regional como fator de risco
A adoção desigual da tecnologia no país é outro ponto de atenção. Hubs de inovação em São Paulo, Recife e Vitória já aproveitam a redução de barreiras de entrada que a IA proporciona: é possível criar aplicativos, estratégias de marketing e resolver problemas que antes exigiam equipes inteiras. Mas essa realidade não chega ao interior do Brasil. “Há regiões que sequer têm infraestrutura básica; imagina discutir IA nesses contextos”, pondera Massad. Para ele, o Estado deveria assumir papel mais ativo na promoção do letramento digital, sob risco de aprofundar desigualdades já existentes.
A discussão sobre taxação da IA e seus efeitos na arrecadação, um dos pontos levantados pelo relatório da Citrini, também preocupa o professor. O projeto de regulamentação já passou pelo Senado e está na Câmara, mas Massad alerta que fórmulas apressadas podem inibir inovação. “Muitas vezes quem discute não tem conhecimento técnico suficiente”, critica.
O que cada um pode fazer
Na visão do pesquisador, a resposta ao avanço da IA não é apocalíptica, mas também não admite passividade. Indivíduos, empresas, instituições de ensino e o poder público precisam agir de forma coordenada. “A única saída é aprender a usar essa tecnologia no dia a dia”, afirma. “Quem não buscar entender e trabalhar com IA pode ficar de fora primeiro da empresa e, depois, do próprio mercado.”
Massad recorre a uma metáfora do esporte para sintetizar o momento: “Gosto de correr maratona, e maratona é sobre ritmo. A IA está funcionando como um sprint de 100 metros. O problema é achar que isso, sozinho, vai resolver tudo. Produtividade recorde sem ajuste de suporte social e modelos de negócio não se sustenta.” Para ele, a revolução em curso é real e comparável ao surgimento do computador pessoal e da internet, mas desta vez o impacto recai não sobre o operário da fábrica, e sim sobre trabalhadores qualificados. Uma diferença que muda tudo.








