O setor agropecuário encerrou o ano de 2025 sob forte pressão financeira, assumindo a liderança isolada no ranking de pedidos de recuperação judicial no Brasil. De acordo com o levantamento consolidado da Serasa Experian, o agronegócio foi responsável por 30,1% dos processos registrados, o que corresponde a 743 CNPJs. O número reflete uma inversão de tendência em relação ao ano de 2024, quando o setor de serviços detinha o maior volume de solicitações de socorro judicial no país.
Logo atrás da agropecuária, os prestadores de serviços registraram 739 pedidos, representando 30% do total de empresas em crise. O cenário de insolvência estendeu-se também ao comércio, que concentrou 21,7% das ocorrências (535 CNPJs), e à indústria, que fechou o ano com 18,2% de participação (449 CNPJs). Segundo analistas da Serasa Experian, essa distribuição evidencia as dificuldades heterogêneas da economia brasileira, que variam conforme o custo do crédito e as dinâmicas específicas de demanda.
A economista-chefe da instituição, Camila Abdelmalack, destacou que a vulnerabilidade do campo é acentuada por fatores intrínsecos à atividade, como os riscos climáticos e biológicos. Estiagens severas, excesso de chuvas, geadas e a incidência de pragas criam uma incerteza constante sobre a produtividade. Esses elementos, muitas vezes fora do controle do produtor, desestabilizam o planejamento financeiro e comprometem a capacidade de honrar compromissos de curto e médio prazo.
Além das questões naturais, o choque nos preços das commodities e a alta dos insumos dolarizados — como fertilizantes e defensivos — agravaram a situação financeira das empresas do setor. A exposição cambial e o ciclo financeiro prolongado entre a safra e a entressafra tornam a gestão do fluxo de caixa uma tarefa complexa. Quando os preços internacionais caem simultaneamente ao aumento dos custos de produção, as margens de lucro são comprimidas, gerando um efeito dominó em toda a cadeia produtiva.
Diante desse cenário adverso, a recuperação judicial tem sido adotada como um instrumento de sobrevivência não apenas por produtores individuais, mas por empresas de armazenagem, logística e agroindústrias. A medida visa permitir a renegociação de passivos acumulados e garantir a continuidade das operações essenciais. Para os especialistas, a preservação do emprego e da estrutura produtiva do agronegócio é vital para a estabilidade econômica nacional, dada a relevância do setor para o PIB brasileiro.









