Um estudo conduzido por especialistas do Brasil e do Reino Unido acaba de dar um passo importante para o fortalecimento da participação comunitária na gestão de plataformas digitais. O artigo “Doing Good through Collaborative Practices: The value of co-designing a digital commons platform for an equitable digital society”, que foi publicado no The Design Journal, um dos principais periódicos científicos internacionais dedicados à pesquisa em design, apresenta o Framework Digital Commons Design (DCD), uma metodologia inédita que transforma conceitos acadêmicos sobre bens comuns digitais em um modelo prático e replicável para o desenvolvimento de plataformas geridas coletivamente. A abordagem demonstra como as comunidades podem administrar recursos compartilhados de forma eficiente e sustentável, oferecendo uma alternativa aos modelos tradicionais de gestão privada ou governamental.
Assinado por Rosendy Galabo, Justin Sacks, Marcella Abreu dos Santos e Jovemar Junior, o artigo representa um avanço ao sistematizar, pela primeira vez, uma metodologia capaz de traduzir de forma prática a teoria dos bens comuns, que estuda como comunidades podem administrar recursos compartilhados de maneira eficiente e sustentável.
“Por muito tempo, a gente aceitou essa ideia de que, para utilizar a internet, precisaríamos entregar nossos dados e nossa autonomia a algumas poucas empresas globais. Na verdade, as comunidades podem criar suas próprias ferramentas digitais, onde as decisões e os benefícios ficam onde realmente importam: nas mãos das pessoas. O que fizemos foi criar um manual prático de design, no qual pegamos regras consolidadas de governança comunitária e as traduzimos em botões, fluxos e estruturas de dados de aplicativos”, ressalta Rosendy Galabo, coordenador da pesquisa.
“Em exemplos práticos, bens comuns são tudo aquilo pelo qual um grupo de pessoas ou organizações decidem investir esforços para criar ou manter, seja a causa que uma Rede decide defender ou um território onde convivem comunidades e operações industriais compartilhando o espaço físico”, explica Jovemar.
Segundo Jovemar, a metodologia Framework DCD foi desenvolvida a partir da experiência da Cooperativa Digital, um projeto de pesquisa financiado pela Digital Good Network e realizado em parceria com organizações da sociedade civil (OSCs) do Maranhão. A iniciativa teve como ponto de partida a Reapp Mobi, uma social tech que atua no relacionamento entre organizações sociais, empresas e doadores para facilitar a destinação de notas fiscais e fortalecer a captação de recursos para OSCs.
A pesquisa surgiu a partir de um desafio identificado na própria plataforma. Os pesquisadores observaram que o algoritmo do aplicativo priorizava organizações ou projetos cadastrados mais recentemente, o que gerava uma distribuição de doações percebida como injusta pelas OSCs participantes. A partir desse diagnóstico, a comunidade foi convidada a cocriar novas regras de funcionamento e governança para a plataforma.
Durante oficinas participativas, as organizações participantes apontaram três prioridades centrais: fortalecer o engajamento dos doadores, diversificar as formas de captação de recursos para reduzir a dependência de editais e programas públicos e ampliar a participação coletiva na tomada de decisões sobre a distribuição dos recursos. Com base nessas contribuições, representantes das OSCs participaram do redesenho da Reapp Mobi, ajudando a definir novas funcionalidades, mecanismos de governança coletiva e critérios de tomada de decisão.
O processo resultou em uma nova versão da plataforma, lançada no Google Play no início de 2025. Os resultados mostraram que a participação direta das organizações na definição das regras e funcionalidades ampliou o sentimento de pertencimento, fortaleceu a autonomia da rede e contribuiu para a construção de um ambiente digital mais justo e representativo.
O estudo da metodologia está alinhado à agenda Our Common Agenda, da Organização das Nações Unidas (ONU), que defende o fortalecimento dos bens comuns digitais como estratégia para ampliar a cooperação, a participação cidadã e a equidade no ambiente digital. A pesquisa procurou responder a uma questão cada vez mais relevante em um mundo conectado: como construir plataformas digitais que não sejam controladas exclusivamente por empresas ou governos, mas que possam ser administradas pelas próprias comunidades que as utilizam?
Ainda de acordo com Jovemar Júnior, da Reapp Mobi, o principal diferencial do estudo foi transformar conceitos amplamente discutidos na academia em uma metodologia prática, capaz de orientar processos reais de construção e governança de plataformas digitais. “Isso permite que organizações e comunidades tenham um caminho estruturado para desenvolver soluções mais participativas, transparentes e alinhadas às suas necessidades”, destaca.
“O estudo de caso do Maranhão mostra como comunidades locais podem transformar plataformas privadas em bens governados coletivamente, fortalecendo a autonomia das próprias comunidades e do terceiro setor, no Brasil e no mundo, respondendo ao chamado da ONU por bens comuns digitais como bens públicos globais, oferecendo um modelo replicável que coloca a equidade e a sustentabilidade no centro do design de plataformas e modelos de gestão“, complementa Marcella Abreu dos Santos, pesquisadora assistente.
A metodologia DCD foi desenvolvida a partir dos princípios de governança de bens comuns formulados pela economista Elinor Ostrom, primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia. A metodologia organiza esses princípios em três grandes frentes de ação: projetar interações e resultados, moldar comportamentos e usos e definir pertencimento e processos de decisão coletiva.
A pesquisa também amplia o debate internacional sobre equidade digital ao contribuir para a discussão sobre o conceito de “bondade digital” (digital goodness), que busca compreender o que torna as tecnologias mais justas, inclusivas e benéficas para a sociedade.
Uma das principais conclusões do artigo é que a equidade não deve ser entendida como um conceito universal ou previamente definido. Segundo os pesquisadores, o que é considerado justo, inclusivo ou desejável precisa ser construído coletivamente pelas comunidades envolvidas, por meio de processos participativos de diálogo e tomada de decisão.
“Equidade, pra mim, é compartilhar também locais de decisão e influência de forma voluntária. Incluir todos os atores impactados em um projeto social ou digital desde a concepção. Essa foi a forma de trabalhar que chamou a atenção da academia para sistematizar o que estávamos fazendo silenciosa e diariamente entre os integrantes da nossa rede. E me deixa muito feliz saber que esse jeito de fazer impacto e justiça social, agora pode ajudar outras redes a também se entenderem como protagonistas nos processos de transformação social”, acrescenta Jovemar.
Além da contribuição acadêmica, o diretor da Reapp Mobi acredita, junto aos demais pesquisadores, que a metodologia poderá apoiar futuras iniciativas de inovação social, políticas públicas e projetos de tecnologia voltados ao fortalecimento da participação cidadã e da soberania digital.
A exemplo do programa socioambiental Lembrança de praia que, em em menos de um ano, conseguiu captar recursos federais e aproximar parceiros como Sebrae, SESC e Associação de Moradores da Vila de Pescadores Olho de Porco em torno de um roteiro turístico percebido como bem comum, e o Projeto Rota Guardiões: itaqui-bacanga, realizado pelo parque botânico da vale e jovens de comunidade-anfitriãs da operação portuária da mineradora, que aplica a metodologia para trabalhar a gestão de perfis comunitários do projeto em diversas redes sociais onde os participantes são os gestores desses perfis de forma compartilhada.








