A Biosolvit começou a partir de um problema comum na indústria: o descarte de grande parte da matéria-prima utilizada na produção. Hoje, a empresa fluminense transforma resíduos vegetais e plásticos em produtos destinados a cinco mercados e prepara uma nova fase de expansão no Brasil e no exterior.
Fundada em 2014 pelo empreendedor Guilhermo Queiroz, em Barra Mansa, no Rio de Janeiro, a companhia encerrou 2025 com faturamento de R$ 70 milhões. Para 2026, a projeção está entre R$ 90 milhões e R$ 95 milhões, mas pode alcançar aproximadamente R$ 135 milhões caso sejam concluídas negociações de fusões e aquisições atualmente em andamento.
O plano de longo prazo é ainda mais ambicioso. A Biosolvit pretende chegar a R$ 700 milhões em receita até 2032, apoiada na expansão das operações, em novas tecnologias, aquisições e na implantação de um modelo de franquias.
A empresa produz desde vasos ecológicos feitos com fibras de palmeira até soluções para controlar poeira em mineradoras, tratar água e conter vazamentos de petróleo.
Desperdício de palmeira deu origem ao negócio
Antes da Biosolvit, Guilhermo construiu uma carreira de mais de duas décadas no setor de tecnologia. Formado em Análise de Sistemas, começou a trabalhar na Totvs, então Microsiga, em 1999.
Três anos depois, tornou-se sócio da operação Totvs Rio Interior, responsável pela expansão dos sistemas de gestão da companhia em regiões do Rio de Janeiro e de São Paulo. Permaneceu no grupo até 2022.
A origem da Biosolvit, porém, está ligada à história de sua família. O pai de Guilhermo trabalhou durante cerca de 40 anos em uma fábrica de palmito. Quando a operação foi encerrada, no fim da década de 1990, o empreendedor passou a considerar a possibilidade de retomar o negócio.
Em 2008, comprou o que restava da fábrica e abriu uma empresa voltada à produção de palmito em conserva. A experiência mostrou rapidamente que o modelo apresentava baixa possibilidade de diferenciação, concorrência elevada e dificuldades para ganhar escala.
A virada ocorreu quando Guilhermo percebeu que somente cerca de 3% da palmeira era aproveitada para a produção do alimento. Todo o restante, incluindo fibras, caule e bainhas, era descartado.
O material que antes representava um custo passou a ser tratado como matéria-prima.
Primeiro produto foi um vaso ecológico
A Biosolvit começou oficialmente a operar em 2014, com uma proposta diferente da fábrica de alimentos. A empresa passou a pesquisar formas de utilizar resíduos orgânicos, principalmente provenientes do agronegócio, no desenvolvimento de novos produtos.
O primeiro resultado foi o xaxim de palmeira, vaso ecológico produzido com partes da planta que seriam descartadas. Depois vieram substratos e outros produtos voltados à jardinagem.
Nesse período, Guilhermo conheceu Wagner Martins Florentino, que participava de um projeto universitário para testar a capacidade das fibras de palmeira de absorver petróleo.
Os resultados abriram uma nova possibilidade de negócio. Wagner foi convidado a integrar a companhia e tornou-se sócio e cofundador.
A tecnologia permitiu que a Biosolvit avançasse para o atendimento a indústrias e empresas envolvidas na prevenção ou resposta a acidentes ambientais.
Biosolvit atua em cinco mercados
A operação foi organizada em cinco unidades de negócios. A Bio Home Garden reúne vasos ecológicos, substratos e produtos para jardinagem doméstica.
A Bio Response desenvolve materiais absorventes, barreiras e sistemas de contenção usados em ocorrências envolvendo petróleo e outros contaminantes. As soluções também podem ser aplicadas na prevenção de acidentes e na retenção de detritos em rios.
Na área de filtração, a Bio MPF fabrica elementos e materiais filtrantes para diferentes processos industriais.
A Bio Water Care trabalha com equipamentos e softwares para tratamento de água. As soluções usam inteligência artificial e processamento local de dados para monitorar parâmetros em tempo real e controlar a dosagem de produtos químicos.
Esse sistema atende empresas de saneamento, indústrias e condomínios que precisam acompanhar continuamente a qualidade da água.
A quinta operação, chamada Bio Dust Control, produz supressores de poeira para setores como mineração e siderurgia. Os produtos ajudam a reduzir a quantidade de partículas suspensas em ambientes industriais.
Garrafas PET viram insumo para mineração
Uma das novas frentes da Biosolvit utiliza garrafas PET descartadas para produzir supressores de poeira.
O processo aplica reciclagem química para transformar o plástico em uma resina biodegradável. Mais de 2 milhões de garrafas PET já são recuperadas por meio de cooperativas de catadores para abastecer essa produção.
A tecnologia amplia a vida útil do material e cria uma aplicação industrial de maior valor agregado.
A empresa também desenvolve sistemas para filtrar água contaminada em operações relacionadas à exploração de petróleo. Outra linha de pesquisa busca produzir carvão ativado a partir de uma matéria-prima disponível em grande quantidade no Brasil, mas ainda pouco aproveitada comercialmente.
Esses projetos mostram a tentativa de combinar economia circular e desenvolvimento tecnológico, transformando materiais descartados em insumos para indústrias que operam em grande escala.
Expansão inclui seis estados e novas aquisições
A sede administrativa da Biosolvit permanece em Barra Mansa, onde também funciona uma de suas fábricas. A companhia possui unidades produtivas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, no Espírito Santo e em Minas Gerais.
Atualmente, emprega 169 pessoas.
A distribuição das fábricas aproxima a empresa de mercados consumidores e das matérias-primas utilizadas na produção. A estrutura também ajuda a reduzir custos logísticos em uma operação que atende setores com necessidades bastante diferentes.
As aquisições em negociação poderão acelerar a entrada em novos mercados, incorporar tecnologias e aumentar o faturamento já em 2026.
Além do crescimento por compras, a companhia prepara um sistema de franquias. O formato pode ampliar a capilaridade de determinadas unidades sem exigir que todos os investimentos partam diretamente da empresa.
Meta de R$ 700 milhões depende de escala
Para alcançar R$ 700 milhões em receita até 2032, a Biosolvit precisará multiplicar por dez o faturamento registrado em 2025.
O avanço deverá combinar crescimento das cinco unidades, novos produtos, expansão internacional e aquisições. A diversificação reduz a dependência de um único mercado, mas também aumenta a complexidade operacional.
Jardinagem, saneamento, mineração, petróleo e filtração industrial possuem ciclos de venda, exigências técnicas e perfis de clientes diferentes.
A experiência de Guilhermo com sistemas de gestão e governança passou a ser usada para organizar essa estrutura. Segundo o fundador, os anos dedicados à tecnologia ajudaram a criar os processos necessários para administrar uma companhia com várias frentes.
O que começou como uma tentativa de reabrir uma fábrica de palmito transformou-se em um negócio que encontra valor justamente na parte que antes era descartada. Agora, a Biosolvit aposta que essa lógica poderá sustentar a expansão de R$ 70 milhões para até R$ 135 milhões em apenas um ano.









