Por: Turiddo Bonazzi
Nada mais atual do que nos depararmos com discussões sobre as novas e antigas gerações — debates que, por vezes, ainda aprisionam a experiência ao mundo dos mais velhos e a energia ao mundo dos mais jovens, como se a vida pudesse ser dividida em faixas etárias estanques.
Mas a realidade insiste em nos lembrar que sabedoria e vitalidade não pertencem à idade; pertencem ao espírito, ao nível consciencial do Ser.
Inspirado pela recente publicação da edição “Seja Relevante” da Fundação Dom Cabral – FDC, que apresenta reflexões e pesquisas alinhadas ao trabalho de Megan Gerhardt, decidi ampliar esse olhar — não apenas para a importância de uma nova forma de liderar, a Liderança Multigeracional, mas para algo ainda mais profundo, já que vivemos um tempo raro, quase inédito.
Um tempo em que quatro, cinco gerações caminham lado a lado, respirando o mesmo ar, dividindo empresas, famílias, cidades, sonhos — mas com histórias profundamente diferentes gravadas no corpo e na alma.
E é justamente aqui que mora o desafio — e a oportunidade histórica.
Porque nunca fomos tão diversos. E, paradoxalmente, nunca dependemos tanto uns dos outros.
Certezas que nos prendem. Mitos que nos cegam. Estereótipos que nos separam.
Por décadas, lideranças — nas empresas, nas organizações sociais e até dentro das famílias — foram guiadas por um modelo não geracional, rígido, linear, centrado na ideia de que experiência bastava, que juventude era sinônimo de impulsividade e vitalidade, que senioridade se traduzia automaticamente em sabedoria, e que adaptabilidade era atributo exclusivo de quem nasceu mais tarde.
Só que nada disso é verdade.
As certezas absolutas sempre foram perigosas. Os mitos sobre gerações sempre esconderam complexidades. Os estereótipos sempre tiraram de nós o melhor que poderíamos ser.
E a liderança do futuro — e do agora — não pode mais se permitir tamanha miopia.
A nova liderança é Transgeracional.
A nova liderança deve ser, acima de tudo, transconsciencial.
Liderar Pessoas & Cultura no Brasil e no mundo implica reconhecer que nenhuma geração detém o monopólio da verdade — nem da inovação, nem da maturidade, nem da sensibilidade.
A sabedoria não pertence necessariamente aos mais velhos. A audácia não nasce exclusivamente nos mais jovens. A criatividade não tem data de validade. E a vulnerabilidade não escolhe idade.
A nova liderança não classifica gerações — integra. Não compara — conecta. Não enquadra — expande. Não disputa — compõe.
Porque ninguém sabe tudo.
Todos carregam um pedaço da resposta. Um fragmento do futuro. Um ponto cego que só o outro consegue iluminar.
A senioridade traz repertório e perspectiva. A juventude traz energia e movimento. E a maturidade emocional — quando bem cultivada — faz a ponte entre as duas.
Mas isso não acontece por acaso.
Nada se transforma por mágica. E muito menos as culturas.
Requer consciência. Requer desapego. Requer coragem de rever valores, crenças e achismos. Requer disposição para escutar, para desaprender, para questionar aquilo que “sempre foi assim”.
Porque liderança não é convencer. É entender.
Antes de integrar, é preciso compreender.
Cada geração se formou sob contextos econômicos, culturais e sociais distintos. E cada país, cada região, cada cidade imprime nuances específicas a essas vivências.
Liderar num mundo Transgeracional exige investigar — não supor. Exige perguntar — não rotular. Exige buscar o que une — não o que separa.
Só assim é possível perceber algo essencial: a potência não está nas diferenças, mas na forma como escolhemos combiná-las.
De mentalidade de escassez à consciência de integração.
A lógica da competição — ainda tão presente — é o maior inimigo do crescimento humano e organizacional.
Competir gera medo. Medo gera silêncio. Silêncio bloqueia criatividade, inteligência e colaboração.
Mas quando substituímos a escassez pela integração, algo extraordinário acontece:
As ideias fluem. As equipes se sentem parte. A inovação não precisa ser empurrada — ela emerge. E o negócio, naturalmente, cresce, de forma sustentável e se renova continuadamente.
Porque colaborar é mais estratégico do que competir. E sempre foi.
Quando bem gerida, a diversidade geracional é a maior alavanca de produtividade e inovação que existe.
Não há algoritmo, inteligência artificial, processo corporativo ou tecnologia que supere o que acontece quando o conhecimento profundo encontra a ousadia criativa; quando a prudência dialoga com a velocidade; quando o passado inspira o futuro.
As organizações e as lideranças que entenderem isso não apenas prosperarão — elas se tornarão agentes de transformação social, impactando tudo e a todos a sua volta.
Porque liderar gerações não é liderar idades. É liderar consciências. É liderar vidas. É liderar futuros.
No fim, a verdadeira liderança é uma ponte.
Uma ponte entre mundos. Entre histórias. Entre tempos.
Uma ponte construída com escuta, respeito, curiosidade e coragem. Uma ponte onde ninguém precisa competir para existir. Onde todos ganham por estarem juntos. Onde o humano se reconhece no humano — independentemente da data de nascimento.
E talvez esse seja o maior chamado do nosso tempo:
Transformar a convivência entre gerações num espaço de evolução, maturidade, pertencimento e crescimento coletivo.
Porque quando as gerações se encontram — de verdade — a sociedade inteira avança.
E a liderança deixa de ser apenas um papel. E se torna uma missão.
Turiddo Bonazzi Mentor com abordagem Terapêutica. Palestrante/Trainer e Consultor sobre Modelos de Gestão pela Excelência e em Desenvolvimento Humano e Organizacional e de Lideranças.